sábado, 24 de outubro de 2009

Qual é o valor da realização?

Curitiba, 18 de Maio de 2003. (pra falar a verdade, quase dia 19)

O culto foi um total desastre e mamys saiu reclamando dos bancos, da localização da igreja, do tipo dos fiéis, dos berros do pastor, dos cânticos do coral e disse que se aquele lugar era uma igreja, Osama Bin Laden iria ganhar o Prêmio Nobel da Paz.
Depois de uns sanduíches de almoço, graças a enxaqueca de mamys, resolvi conversar com ela sobre a minha decisão e ela riu:
"Professora de História?"
"E aí, não é demais?" - perguntei
"Se você quiser passar fome, te dou todo apoio do mundo..."
"Como, mãe?"
"Professor não ganha nada nesse país, Renata..."
"Mas não foi você mesma que me disse que sempre serão necessários os mestres?"
"Você ta pensando que eu vou ser eterna, é?Pois vá se enganando porque daqui a uns anos eu não estarei mais aqui pra te ajudar, então se esperte..."
"Ser professora de História é interessante e, além do mais, vou poder me aprofundar num assunto o qual mais me interesso, estudar muito e até ser doutora..."
"Doutora?"
Ela só franziu a testa como se tivesse ouvido a besteira mais absurda do mundo.
Pensei em argumentá-la porque sabia que ela estava COMPLETAMENTE equivocada, mas, no entanto, preferi manter-me em silêncio.
Como assim "professor não ganha nada"?
Por que você tem que escolher um curso que te proporcione a ganhar dinheiro?
Ta, suponhamos que eu escolha uma faculdade e depois seja frustrada durante anos porque fiz algo só pra ganhar dinheiro.
Vou descontar o meu ódio nos filhos e querer forçá-los a sonhar os meus sonhos?Isso é desumano!
Conheço muitos professores que podem até não ser ricos, mas são sábios e muito felizes seguindo a área em que gostariam e trabalhando com o que mais amam fazer.
Se eu trabalhar só pra ganhar dinheiro, vou valer o meu salário.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Bom sinal

Curitiba, 17 de Maio de 2003.

15 anos e 6 meses...Uhu!!! :D

Hoje voltamos a ir à igreja e eu orei muito pela Raimunda porque senti, como nunca, que ela precisava muito de força agora...
Mamys foi me buscar no fim do culto e se convidou pra irmos assistir juntas a reunião da manhã.
Até to surpresa com a pergunta dela, pois normalmente ela torce o nariz pra tudo que eu gosto e sempre coloca defeitos.
Acho que as coisas estão se caminhando para seus lugares e amanhã, depois do culto, vou aproveitar pra contar à ela sobre minha decisão de ser professora de História.
O Gui e o Cadu já apoiaram, a Julia disse que é um curso muito interessante e o Rodrigo falou que com certeza eu vou ser melhor professora que a Carmen...
Será que os profs da faculdade são todos iguais a Carmen ou ainda existem Edus e Paulas perdidos pelo mundo afora?

Conclusões de sexta-feira...

Curitiba, 16 de Maio de 2003. (algumas horas mais tarde)

Fiquei pensando na Raimunda hoje, coitada...
Não fui à igreja do letreiro bizarro e tampouco saímos da casa do Gui porque queríamos contar ao Cadu tudo que rolou enquanto ele gemia e chorava de dor lá na enfermaria da escola.
Enfermaria?Não tem enfermaria nenhuma...
É uma sala menor que a da Raimunda e tem um sofá marrom velho com um cobertor da mesma cor, um armário onde são guardadas doações de remédios e, pra falar a verdade, a APM do nosso colégio não ganha nem um prego torto...
Quem cuida da enfermaria é a Telma, uma mulher corpulenta, mal humorada e flatulenta que vive tragando cigarro.
A roupa dela cheira mal, a boca dela fede e banho ela não deve gostar muito de tomar.
A Telma trabalhava na secretaria no começo do ano, mas agora a colocaram pra trabalhar na enfermaria.
A mulher é mais escrota que cavalo birrento, não tem condições para desempenhar a função.
Eu ainda não precisei ir lá, mas já acompanhei a Ju quando ela tava com cólica, por isso sei qual é o tratamento VIP da Telma.
"Qué que cê qué?"- pergunta a Telma
"To com cólica!"- responde a Ju quase desmaiando de dor
"Quando casar passa... Não ta perdendo aula não, mocinha?Se a Raimunda souber que você ta cabulando aula, você ta frita..."
O jeito foi ir lá na cantina e pedir pro tio esquentar uma bolsa pra Ju, a essas alturas já chorando.
Mas enfim, o Cadu não acreditou muito na morte do Raimundinho até a gente ligar a TV e ele conferir no Jornal da Janta.
"Indignação: Escola tem aulas suspensas porque o cão da diretora morreu."
"Jura que a Raimunda perdeu a compostura?Puta que pariu!Não me conformo que perdi isso..."
"Quem mandou se quebrar todo?" - o Gui não tinha dó de zoar
"E quanto ao lance de vocês, como é que vai ficar?" - perguntei
"Eu sou veterano e conheço a Raimunda...confiem em mim..."
"Sei que não sou veterana como você, mas sabia que o Raimundinho era como um filho pra ela, né?Acho que depois que todos os filhos dela se casaram, ela se sente sozinha..."
O Gui teve um acesso incontrolável de riso.
"A Raimunda?Casada?Só se for com o diabo!"
"Ah não, né?Você ta me zoando..." - Cadu revidou
Infelizmente não demorou nem mais 2 minutos e só deu tempo de escutar mamys buzinando impacientemente em frente a casa. Só dei um selinho final no Gui e fui pro carro.
Deveria estar morta de sono, mas não consigo parar de pensar no que houve pela manhã.
Quantas vezes me lamento por não ter uma filmadora pra poder registrar todas as pirações que rolam lá na escola.
Na segunda feira odeio ir pro colégio, na terça feira o astral já melhora um pouco, na quarta-feira penso que metade da semana já foi, na quinta feira as brincadeiras aumentam e na sexta-feira até lamento que o fim de semana esteja chegando porque apesar dos pesares, eu gosto de todo mundo...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O dia em que a Raimunda chorou

Curitiba, 16 de Maio de 2003.

Hoje fomos liberados mais cedo, ou melhor, nós nos liberamos mais cedo por causa do evento mais bizarro da face da Terra.
Foi um evento bizarro, engraçado e ao mesmo tempo triste...
As três primeiras aulas foram suuuper susse e ainda mais se tratando da nossa classe, que é a pior da escola, é um grande avanço, mas o que importa mesmo são os fatos que ocorreram no intervalo neste nosso colégio sem noção.
A Turma do Metal resolveu não comparecer a reunião do Grupinho de Oração e Salvação para apostar uma descida triunfal de skate do escadão que separa o Bloco 1 do Bloco 2.
Eu, é claro, assisti até mesmo aos preparativos e já torcia secretamente pelo Gui, logicamente.
A galera da escola, principalmente do ginásio em diante, se reuniu no pátio e até mesmo no gramado pra ver a descida começar...
"5, 4, 3... já não dá pra amarelar, hein Cadu?"-zoou o Gui
"Hahahaha...olha quem fala..." - revidou Cadu
"2 e meio, 2, 1 e meio, 1 e...É AGORA!"- gritou o Guilherme
O Gui fez uma descida incrível enquanto que o Cadu perdeu o controle do skate e caiu escada abaixo...
Sabe-se lá Deus como, mas a Raimunda já estava lá embaixo sabendo e enquanto todos nós aplaudíamos a ousadia dos metaleiros, Raimundinha os encaminhava até a direção...
O Meleca (Reinaldo), caseiro do colégio, foi ver o salto dos garotos, até porque ele mesmo tem uma tendência a gostar de skates, porém cometeu um grande erro: deixou aberto o cercado do Raimundinho (um simpático vira-lata criado aos mimos pela diretora) e o cachorro resolveu sair pra passear, mas pouco aproveitou porque logo em seguida que a Raimunda ia levando os metaleiros pra direção, ouviu-se lá de fora uma forte freiada.
Nos muros os mais curiosos se aglomeravam para ver o cadáver do Raimundinho e pela primeira vez na vida TODOS nós vimos a diretora chorar.
O carro que, sem querer atropelou Raimundinho, foi depredado pela Raimunda que apanhou um pedaço de pau e quebrou no pára-brisa do veículo.
O motorista bem que tentou se desculpar, contudo nada era capaz de acalmar a fúria da dona Raimunda.
Nós acompanhamos o fervo e sabemos de cor e salteado o que foi dito por quem.
Eita curiosidade do povo, né?
O sinal para a quarta aula tocou, mas nós continuamos no pátio fazendo fervo pra sermos liberados mais cedo, afinal aturar aula da Carmen NINGUÉM merece.
A orientadora Gerusa não quis nos deixar sair e ameaçou dar ocorrência pra todo mundo, mas por mais que berrasse com toda força do mundo, nós éramos em maioria, então tínhamos o poder de escolha em nossas mãos.
Os mais espertinhos saíram pulando pelos muros enquanto nós ficamos parados em frente ao portão esperando uma decisão da coordenadoria.
A Raimunda estava em estado de choque e foi levada para o hospital enquanto o Raimundinho ficou pronto para ser enterrado, mas não o fariam sem a presença da mãe dele.
A velha Gerusa chegou onde estávamos, dando de dedo nos nossos rostos e falando que se acontecesse algo com a Raimunda seria nossa culpa.
Boa essa: seríamos punidos porque o cão da diretora morreu.
Se tivéssemos sido nós, beleza, mas o que tinha a ver uma coisa com a outra?
Por sorte a intrometida foi chamada por um professor e o Gui perguntou pra nós:
"Quem tem uma tesoura?"
"Tesoura pra quê?" - perguntei
Quando a Gerusa voltou, disse:
"Quem tentar abrir este portão vai expulso da escola porque eu vou contar tudo quando a Raimunda melhorar, ouviram beeeeeeeeeem?"
E saiu conversando com o mesmo professor que a chamou.
"Na boa, gente: alguém tem uma tesoura?"
Uma menina do outro segundo ano, o B, tirou uma tesoura cor de rosa da mochila e foi passando pra todos até chegar ao nosso herói, que estava acocorado em frente ao portão.
Com uma destreza nunca vista antes, numa questão de segundos, estávamos livres.
Nós todos saímos berrando e correndo pela rua...
E o Cadu?
Ah, o SAMU foi chamado e junto com o seu Vanderley (meu futuro sogro) fomos buscar o desastrado do Carlos Eduardo no hospital. O doido quebrou as duas pernas, luxou 4 dedos da mão direita e 2 da mão esquerda.
Acabamos não indo à igreja no dia em que a Raimunda chorou.

Futura professora de História

Curitiba, 15 de Maio de 2003.

Depois de anos de total indecisão, descobri o que finalmente me deixa extremamente contente nesta vida louca no planeta imprevisível.
Hoje eu cheguei a conclusão de que meu destino é ser professora de História e agora já não acho mais as aulas da Carmen repulsivas e entediantes, mas um primeiro passo para abrir a mente e expandir os conhecimentos.
Ela pode até ser uma velhota FDP e asquerosa, mas gosta (e muito) do que faz, por isso na verdade não está nem aí se estamos prestando atenção.
Independente se ela der aula ou não, o salário dela ta garantido todo mês e hoje em dia quem não conclui pelo menos o ensino médio não consegue trabalhar nem como gari...
Estamos aprendendo, ou pelo menos achando que estamos, sobre a dominação espanhola aqui no Brasil.
História é interessante, mas a Carmen transforma qualquer matéria, por mais legal que seja, num porre.
Uns bocejavam, outros olhavam pra janela, outros trocavam bilhetinhos discretos, outros conversavam descaradamente e eu, apesar da incontrolável vontade de dormir, tentei entrar na história e me imaginar como um dos personagens, assim poderia entender o que ela estava falando.
Pensei em ser professora de história, pois tenho uns métodos bem loucos que pretendo utilizar quando for lecionar.
Eu sonho demais, né?Malemar sei se vou passar do segundo ano e já estou me achando a professora de história mais renomada dos últimos anos...só eu mesmo...
Mas já me decidi: vou ser professora de História e prometo que alunos meus não terão de reclamar, pois pretendo ser, ou pelo menos tentar, uma boa professora...
Não conheço muita gente que leciona História, então só mesmo a Carmen é quem pode me ajudar.
Já adiei milhares de planos, mas desse não abro mão.
Mamys vive dizendo que já devo começar a planejar o futuro, então, espero eu, que se contente em saber que já sei o que quero fazer para o resto da minha vida.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Shut up

Curitiba, 14 de Maio de 2003.

Hoje o dia não estava meeesmo a meu favor... :/
Preciso mesmo postar uma nota?

Surpreendentemente romântico ♥


Curitiba, 13 de Maio de 2003.

Orei tanto à noite que quando acordei não senti nenhuma dor, nenhuma mesmo!
É meio chato voltar pra escola depois de um fim de semana esticado, mas fazer o que, né?
O legal foi que quando cheguei, encontrei um embrulhinho bem bonito em cima da minha carteira e se me conhece, sabe que a curiosidade falou mais alto em mim e fui depressa abrir.
Além de bonito, o presentinho era um colar em forma de uma guitarrinha amarela e estava com um lindo bilhetinho escrito com a letra do Guilherme ♥:
"Espero que goste muito do meu presente..."
Quando olho para cima, lá está o meu grande amor ali parado, sorrindo com a maior satisfação do mundo.
"Obrigada...não precisava ter se incomodado..."
E me levantei pra dar aqueeeeeele abraço nele.
"Ontem eu achei que fui muito grosseiro contigo e como soube que você gostou desse colarzinho, resolvi te presentear com ele pra sempre se lembrar de mim..."
"Você não foi grosseiro..."
"Claro que fui, Tita..."
"Não foi e pronto..."
"E aí, acertei?"
"Foi o melhor presente da minha vida, eu juro!"
"Quer que eu o coloque pra você?"
E aquelas mãos delicadas, tão másculas e cheirosas, tocaram de leve meu pescoço.
Implorei com força para que esse momento jamais acabasse.
Nem prestei atenção no resto das aulas, ou melhor dizendo, em NENHUMA aula...
Hoje fomos à igreja e ficamos cantando no coral sempre dando um jeitinho de olhar nos olhos um do outro.
Foi um dia lindo e surpreendentemente romântico. ♥