quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

E agora?

Curitiba, 11 de Novembro de 2003.

Hoje, na primeira aula, a Raimunda retornou a nos encontrar e fez TODOS assinarem uma folha de caderno e a própria iria conferir letra por letra pra descobrir quem foi.
Na última aula ela voltou não muito animada, porém disse:

"Quem fez isso foi muito astuto, não é mesmo?Acreditou que falsificando minha letra e minha assinatura impossibilitaria que eu descobrisse a farsa. Você pode até ser esperto, mas eu sou mais e vou continuar investigando pra saber quem foi e ah, não espere uma simples expulsão não...vai ser a pior punição já aplicada nesta instituição de ensino..."

Ah meu Deus!
De uma coisa eu tenho certeza: NÃO fui eu, mas foi alguém da minha patota.
Não me sinto bem pensando na idéia de ter de acusar meus amigos e nem de imaginar no que irá acontecer caso a punição prometida se cumpra.
Maldita hora que fui inventar de fazer caderno de confidências. Se não fosse por minha culpa, nada disso estaria acontecendo. :/

Chumbo grosso

Curitiba, 10 de Novembro de 2003.

Fim de semana vegetando e chorando muuuuuuito.
Segunda feira de volta às aulas e novamente abraçada pela saudade que certo professor deixou dentro do meu coração como lembrança dos dias mais felizes da minha vida.
Na hora do intervalo me deu uma crise de choro e meus amigos tiveram que me consolar...
Não demora muito pra Andrea chegar meio sem jeito pra devolver o caderno. A Ju, por ser irmã mais velha, já tratou de zoar com ela, mas tudo sempre termina numa brincadeira descontraída.
Depois que a Andrea saiu, resolvi abrir o caderno e uns cinco jegues vem se jogar em cima de mim pra ler tudo junto comigo...

"Eita curiosidade..." - a Morgan comentava

Me recuperei do 'susto' e disse:

"Depois vocês leem. A primeira sou eu porque sou a dona do caderno..."
"A Raimunda assinou?" - Ricardo (leso) perguntou
"Ahn?" - um coro perguntou
"Nada... não disse nada..."
"E mesmo que assinasse seria um puta tédio. Nome: Raimunda, idade: 50 anos; profissão: diretora vitalícia da nossa escola; estado civil: viúva; filhos: Meleca (o inspetor); estilo musical: música de igreja..."
"Tu sabe muito da vida da Raimunda, hein?" - o Rodrigo provocou o Cadu
"Ela é previsível, cara. Não é nem preciso investigar..."

Tocou o sinal e a gente foi assistir a aula seguinte.
Nos reunimos numas 10 pessoas pra ler o caderno e a cada pergunta um burburinho e risinhos, ambiguidade pairando no ar...
Nisso, bate alguém na porta e o profe vai atender: é a Raimunda.
Com cabelo liso ou não, a cara de poucos amigos continuava a mesma e com certeza lá vinha chumbo quente pra nossa classe:

"Esperei passar um pouco o clima das eleições pra ter essa conversinha com a classe de vocês..."
"Agora não dá mais pra tacar bolinha de papel no cabelo dela..." - devaneou o Cadu
"Tadinha, cara. Vocês não prestam..." - brincou a Morgan

O sermão era por conta das péssimas notas da turma e a alta taxa de evasão e reprovação em comparação as outras classes do colégio inteiro.

"Vocês não querem nada com nada, ficam só no oba oba fazendo bagunça, brincando, matando aula e depois acham que a escola é ruim, que a culpa é do professor que só falta, porém isso NÃO é desculpa, pois nem mesmo na época de eleições deixei que vocês fossem afetados perdendo conteúdo e é isso que recebo em troca: completo desprezo por parte de vocês. Não tem UM professor que não venha se queixar da vagabundagem coletiva e é com muita vergonha que venho aqui ver se consigo fazer vocês acordarem pra vida e perceber que o vestibular já é no ano que vem e se as coisas continuarem onde estão, sinto dizer, mas vai ser difícil passar..."

E eu lá tava com cabeça pra vestibular?

"Pô Tita, ta com moral, hein?" -  o Gui disse isso me dando cotoveladinhas
"Oi?" - tava sem entender bulhufas
"Se faz de rebelde e é a queridinha da diretora..."
"Ham?!"
"Olha quem assinou o caderno..." - apontou a Julia

Quando olhamos, tivemos um acesso de riso enquanto a diretora soltava fogo pelas ventas e escrevia a palavra respeito no quadro negro.
Na hora eu sabia que era palhaçada de algum piá babaca pra querer se achar o phodão, porém quando estou entre amigos, entro na brincadeira mesmo:

"Quem não conhece que a compre..."
"E fez questão de assinar por último..." - acrescentou o Gui
"Aaah Gui, já estragou a brincadeira... Vai, confessa que foi você..." - disse

Não era a letra do Gui muito menos do Cadu.  Lembrava formas femininas e não debochava tanto.

"PROFESSOR NÃO É PALHAÇO. SE SEUS PAIS NÃO LHES ENSINAM O SIGNIFICADO DA PALAVRA RESPEITO, VOU ENSINAR NEM QUE TENHA QUE FICAR AQUI DEPOIS DO HORÁRIO...NÃO É POSSÍVEL QUE ESTOU AQUI BRIGANDO COM MARMANJOS DE 16 ANOS... NEM A TURMA DA QUINTA SÉRIE ME DÁ INCÔMODO COMO VOCÊS DÃO..."

As respostas da Raimunda eram bem bizarras e chocantes e nós parecíamos uns 10 retardados mentais rindo lá no fundão da classe...

"A piada deve estar boa..."
"Esconde o caderno...Esconde o caderno..." - sussurávamos nós meninas
"Se a piada ta boa quero rir junto..."

Claaaaaaaaaaro que ela tava sendo irônica, né?

"Guarda o caderno, caralho..." -  Morgan sussurrou um pouco alto demais

Se um olhar de reprovação matasse, hoje papys e Helena estariam mandando meu corpo até o crematório mais próximo de casa.
Bem, o que aconteceu é que a Raimunda pegou o bendito do caderno e mandou nossa patota pra direção.
Levamos um esporro de baixar as cabeças, mas o riso não parava...
Folheava o caderno e suspirava com ar de surpresa com as respostas, ficava boquiaberta e ao folhear novamente e encontrar seu nome por lá, surtou:

"Falsidade ideológica é crime. Sabiam disso, né?"

A história havia ido longe demais...

"Se passar por outra pessoa é crime e dá cadeia, hein?"

Puta, que merda!
Minhas idéias sempre me condenam, mas eu estava com a consciência tranquila porque sabia que mesmo sendo dona do caderno, não havia sido eu que me passei pela Raimunda...

"Quem se passou por mim vai ter que provar que as informações constadas aqui são verídicas..."
"Foi uma brincadeira, diretora..." - Gui só jogou merda no ventilador
"Mas vocês já estão bem grandinhos pra fazer brincadeirinhas idiotas, não é mesmo?"

Sou da máxima: 'Se não tem nada a dizer, fique quieto (a).'

A FDP fez um puta terrorismo psicológico pra cima de nós que até demos uma olhadinha pra janela pra ver se já não tinham alguns policiais à paisana, helicópteros do SWAT, a imprensa em massa cobrindo a prisão de 7 alunos sem noção de um colégio estadual de curitiba.
Nada.
Salvos por um telefonema, porém antes de sairmos, com os cus que não passavam uma agulha, a Raimunda frisou bem seu castigo:

"Mas não pensem que não vou até as últimas consequencias pra descobrir quem fez essa brincadeirinha de péssimo gosto, diga-se de passagem..."

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quando eu acho que já vi de tudo...

Curitiba, 07 de Novembro de 2003.

Hoje tinha aula com o bruxo (profe Edu).
Só de pensar me dava uma raiva tão grande.
Cadê a euforia da semana passada?O Adalberto levou com ele pra nova escola, pra outra Tita sortuda, enquanto eu vou ficar chorando pitangas pra sempre.
Mergulhada em dores e suposições, certa de dias incertos e tão triste que nem sei descrever.
Como o horário mudou de novo nesta semana, nossa aula vaga ficou pra quinta aula e a quarta era adivinha com quem...
O caderno ta nas mãos da Andréa e na segunda volta pra mim...
Cara, quando bateu a sirene pro intervalo, fui pra ala do primário e me sentei numa escadinha perto da cantina onde resolvi ficar em silêncio e fora da vista de todos, podia pular o muro sem mais problemas.
Quando to lembrando duma coisa boa, eis que toca a música que me lembro do Adalberto...
Chorava tanto e quanto mais chorava, mais vontade dava.
Tocou a sirene e eu, que deveria ser ágil pra pular o muro, não conseguia sair do lugar porque estava soluçando.
Tentei respirar fundo, pensar em algo legal, mas nada vinha a mente a não ser a saudade dele.
Depois de um tempão a Carmen, que errou de ala, me reconhece e quando a vi, já pensei:

"Já to mal e ainda vem a velha pra me dar mais sermão..."
"Que foi, menina?Por que ta chorando?"
"Nada..."
"Ninguém chora por 'nada', menina. Que foi?"
"Eu to bem... não.. não precisa se preocupar..."
"Se estivesse tão bem quanto diz, não estaria aí rompendo em prantos, soluçando..."

Eu jamais imaginei que um dia a Carmen estaria chorando comigo, mas aconteceu.
Me senti mal por tê-la julgado mal o resto do ano...e saber que a mulher gosta tanto de mim...
Ela me disse que sempre pegou no meu pé porque, segundo ela, sou boa aluna e confessou que quando disse que queria ser professora de história, ficou lisonjeada e não quis demonstrar.
Me contou que não quer dizer que só porque o Adalberto saiu da escola que temos necessariamente de parar de se falar e até deu apoio pra sermos amigos...
Não contei que estou amando o Adalberto, mas falei da falta que ele ta fazendo...
Ela me disse que ia guardar nossa conversa em segredo e até prometeu não contar ao Edu que matei a aula dele, pois soube hoje que ela é mãe do Edu e vó da Julia, o que explicar por que Ju e Andréa nunca entravam nas nossas zueiras.
Acho que é hora de parar de fazer pré-julgamentos das pessoas e passar a conhecê-las melhor antes de fazer palhaçadas e colocar apelidinhos babacas.
Ela me levou pra tomar um copo d'água com açúcar e me deu um abraço de mãe, o que me fez parar de chorar e assistir o final da aula do bruxo, ou melhor, professor Edu.
Foi difícil não ficar triste, mas quando o profe me tratou com a sincera dignidade de sempre, me convidou a sentar e confessou que sentia muito pelo Adalberto, percebi que se preocupavam comigo.
Meus amigos já foram ver se eu tava bem e ficaram fazendo mil perguntas e tals. Revelei a eles o lance da Carmen só que esse segredo é da turma e ninguém além de nós pode saber.
Pra tentar me fazer rir, o pessoal, até a Júlia, começou a me lembrar do dia da lista de nomes, da Raimunda dando sermão e escrevendo no quadro, a bola de papel que ficou grudada no cabelo dela e muitos outros micos porque eu tava absolutamente melancólica.
No fundo imaginei como seria se o Adalberto estivesse aqui e pensei como pode ser alguém mexer tanto com você em menos de um mês?Só pode ser amor mesmo...

Difícil não pensar

Curitiba, 06 de Novembro de 2003.

Faltei aula hoje porque inventei que tava morrendo de cólica.
É mentira, pois faz tempo que não menstruo... nem faz falta mesmo...
Ando chorando tanto que até to com náusea, por isso fiquei vendo a Mano's TV só pra tirar um pouco a angústia, porém nem mesmo eles me fizeram rir.
Sabe quando por mais que a piada seja engraçada você não consegue rir?To bem assim.
Acho que esse não é mesmo meu ano.
Queria escrever uma poema, uma canção e até tenho inspiração, contudo não tenho força.

Sem ar

Curitiba, 05 de Novembro de 2003.

Ninguém lá no colégio se chocou com a notícia da morte do Ronei.
A Michelle hoje não foi à aula e os manos choravam.
Pra desvirtuar, ficamos focados no caderno e ele tava sendo preenchido rapidinho, o que me alegrou e até a chata da Andréa ta pedindo pra assinar.
Como apesar de não ir muito com a cara dela, tenho curiosidade de conhecê-la, deixei.
Hoje em dia o Gui nem fala mais da Andrea e ela também ta mais na dela, só pensando em estudar.
Hoje eu o vi e sei lá, tava tão serelepe, tão joselita, porém sei que quando to assim é chamariz pra tragédia e não podia ser menos que isso.
Encontrei o Adalberto no corredor da sala dos profes e a gente se cumprimentou normalmente, contudo, ele, sério, disse:

'Eu preciso conversar com você..."
"Eu... Eu fiz alguma coisa errada?"
"Não, não... Só preciso conversar com você..."
"Pode...Pode falar..."

A gente entrou na sala do professores e tava vazia. Ele fechou a porta, se sentou no sofá bordô de dois lugares e me chamou pra sentar ao lado dele:

"Tita, eu preciso te dizer uma coisa, mas você tem que me prometer que não vai chorar..."
"O que é?"
"Promete que não vai chorar?"
"Primeiro eu preciso saber do que se trata..."
"É o seguinte, Tita: a aula de hoje foi a última... o professor Eduardo volta amanhã..."
"Isso... isso quer dizer que você vai embora?"

Ele balançou a cabeça e eu balançava a minha pra tentar não chorar.

"Eu só queria mesmo te contar que você foi uma das alunas mais especiais que já tive..."

Foi.
Ah que pancada na cabeça, que dor no coração, maldito nó na garganta...

"Tem certeza que não vai chorar?"
"Não, não...eu vou ficar bem..."
"Te desejo tudo de bom nessa vida, Tita. Espero que continue lutando pelos seus sonho se superando sempre e nunca pare de escrever: você tem potencial pra ser uma grande escritora no futuro, mas pra isso tem que continuar estudando, viu?Você é uma menina linda, inteligente e tem muita chance de fazer a diferença, por isso nunca deixe de ser honesta, sincera e ah, ta muito magrinha, viu?Trate de engordar um pouquinho..."

Só ele pra me achar magra.
Não sei como consegui me despedir e não desmoronar aconchegada naquele abraço.
Quando ele me disse:

"Tchau..."

Disse tchau e a vontade de chorar aumentava tanto que já não conseguia mais respirar de tanta agonia.
Quando cheguei a cancha pra rever meus amigos (era aula de ed. física), tive uma crise de choro das piores e todo mundo ali sem entender o que tava rolando.
Quando contei, a Julia ainda me dá uma bronca dizendo que eu já devia saber.
Detesto quando a Julia quer bancar a dona da verdade e se mete a dar conselhinho. Aff!
Como chorei bastante e já era última aula, resolvi ficar no colégio mais um pouco até conseguir me acalmar e voltar pra casa.
Quando cheguei e até agora só sei chorar...
Minha vida perdeu COMPLETAMENTE a razão.

Sem cabeça

Curitiba, 04 de Novembro de 2003.

Agora que o ano ta chegando na reta final, fico triste ao pensar que vou me separar do meus amigos e, logicamente, dele. :/
Hoje mais gente assinou o famoso caderno e por pouco o MR. Dreads não pegou...
Também, né?O Ricardo é o cumulo da discrição em forma de gente, porém foi só alarme falso.
Terminei umas redações atrasadas do trabalho que tenho que entregar no dia 24 e depois fui ver um pouco de TV, porém como me recuso a ver aquela novela de merda, zapeei pra Mano's TV e conferi o Plantão dos Manos.
Fiquei arrepiada ao saber que encontraram o Ronei enterrado sem cabeça a três quadras do Bar do Jacinto.
Quando a Helena ouviu a notícia, começou a gritar e pedir pra eu mudar de canal porque não gosta de ver violência.
 Desliguei a TV e mandei um torpedo SMS pra Morgan que logo em seguida me ligou.
Pedi a ela que tentasse descobrir pra mim o que tava rolando lá na favela e como ela tem uns trutas bem antenados, não demorou 10 minutos pra eu ficar por dentro de tudo que ocorreu.
A mãe do Ronei estava preocupada, pois desde sexta-feira ele não dava notícia.
Procuraram em todos os DPS, bailes funk, reviraram a casa dele umas 100 vezes até que hoje, no início da tarde, uma pessoa que não quis se identificar, deu todas as pistas para a PM e então encontraram o corpo do Ronei em estado avançado de decomposição, porém sem a cabeça.
Fiquei mal e nem quis comer nada...

Caderno de confidências

Curitiba, 03 de Novembro de 2003.

Apesar das pesquisas de intenção de voto apontarem o profe Edu como favorito a direção do colégio, quem venceu foi a Lisa Raimunda.
Bem, hoje mostrei o caderno ao pessoal e começaram as assinaturas. Agora só quero ver...
Estava sentada no muro conversando com a galera e então o vi...
Fingi que fui pega de surpresa e contei como foi meu final de semana e tals, mas apesar de me tratar com a gentileza de sempre, notei algo diferente no olhar dele.
Ele foi pra sala dos professores e eu voltei pro muro bater papo e fazer bagunça.
Quem tava assinando o caderno era o Cadu e, é claro, todo mundo tava zoando o coitado, principalmente naquelas perguntas 'picantes'.
Tocou a sirene e fomos todos entrar em forma. O Gui ficou imitando a Raimunda fazendo polichinelo e ninguém de nós conseguia conter o riso durante o hino.
Normalmente isso nos custaria uma bronca vergonhosa diante de toda a escola, porém Lisa Raimunda estava de muito bom humor e fingiu que não viu.
Após o hino, a diretora testou o microfone e seu sermão foi bem susse, pois nos agradeceu por ter confiado nela mais uma vez e prometeu que na gestão que começa no ano que vem, vai lutar mais ainda pelo colégio, para fornecer o melhor ensino aos estudantes e nos alegrou saber que as oficinas do contraturno serão reabertas em 2004.
Serão elas: artesanato, língua estrangeira, teatro, música e reforço pra quem ta indo mal.
A Morgan e eu estamos pensando em nos inscrevermos pro teatro.
Depois do sermão, mais aulas e o caderninho passando de mão em mão.
Quero que todo mundo assine pra depois eu ler e ver quem mente mais: o homem ou a mulher.