Curitiba, 10 de Novembro de 2003.
Fim de semana vegetando e chorando muuuuuuito.
Segunda feira de volta às aulas e novamente abraçada pela saudade que certo professor deixou dentro do meu coração como lembrança dos dias mais felizes da minha vida.
Na hora do intervalo me deu uma crise de choro e meus amigos tiveram que me consolar...
Não demora muito pra Andrea chegar meio sem jeito pra devolver o caderno. A Ju, por ser irmã mais velha, já tratou de zoar com ela, mas tudo sempre termina numa brincadeira descontraída.
Depois que a Andrea saiu, resolvi abrir o caderno e uns cinco jegues vem se jogar em cima de mim pra ler tudo junto comigo...
"Eita curiosidade..." - a Morgan comentava
Me recuperei do 'susto' e disse:
"Depois vocês leem. A primeira sou eu porque sou a dona do caderno..."
"A Raimunda assinou?" - Ricardo (leso) perguntou
"Ahn?" - um coro perguntou
"Nada... não disse nada..."
"E mesmo que assinasse seria um puta tédio. Nome: Raimunda, idade: 50 anos; profissão: diretora vitalícia da nossa escola; estado civil: viúva; filhos: Meleca (o inspetor); estilo musical: música de igreja..."
"Tu sabe muito da vida da Raimunda, hein?" - o Rodrigo provocou o Cadu
"Ela é previsível, cara. Não é nem preciso investigar..."
Tocou o sinal e a gente foi assistir a aula seguinte.
Nos reunimos numas 10 pessoas pra ler o caderno e a cada pergunta um burburinho e risinhos, ambiguidade pairando no ar...
Nisso, bate alguém na porta e o profe vai atender: é a Raimunda.
Com cabelo liso ou não, a cara de poucos amigos continuava a mesma e com certeza lá vinha chumbo quente pra nossa classe:
"Esperei passar um pouco o clima das eleições pra ter essa conversinha com a classe de vocês..."
"Agora não dá mais pra tacar bolinha de papel no cabelo dela..." - devaneou o Cadu
"Tadinha, cara. Vocês não prestam..." - brincou a Morgan
O sermão era por conta das péssimas notas da turma e a alta taxa de evasão e reprovação em comparação as outras classes do colégio inteiro.
"Vocês não querem nada com nada, ficam só no oba oba fazendo bagunça, brincando, matando aula e depois acham que a escola é ruim, que a culpa é do professor que só falta, porém isso NÃO é desculpa, pois nem mesmo na época de eleições deixei que vocês fossem afetados perdendo conteúdo e é isso que recebo em troca: completo desprezo por parte de vocês. Não tem UM professor que não venha se queixar da vagabundagem coletiva e é com muita vergonha que venho aqui ver se consigo fazer vocês acordarem pra vida e perceber que o vestibular já é no ano que vem e se as coisas continuarem onde estão, sinto dizer, mas vai ser difícil passar..."
E eu lá tava com cabeça pra vestibular?
"Pô Tita, ta com moral, hein?" - o Gui disse isso me dando cotoveladinhas
"Oi?" - tava sem entender bulhufas
"Se faz de rebelde e é a queridinha da diretora..."
"Ham?!"
"Olha quem assinou o caderno..." - apontou a Julia
Quando olhamos, tivemos um acesso de riso enquanto a diretora soltava fogo pelas ventas e escrevia a palavra respeito no quadro negro.
Na hora eu sabia que era palhaçada de algum piá babaca pra querer se achar o phodão, porém quando estou entre amigos, entro na brincadeira mesmo:
"Quem não conhece que a compre..."
"E fez questão de assinar por último..." - acrescentou o Gui
"Aaah Gui, já estragou a brincadeira... Vai, confessa que foi você..." - disse
Não era a letra do Gui muito menos do Cadu. Lembrava formas femininas e não debochava tanto.
"PROFESSOR NÃO É PALHAÇO. SE SEUS PAIS NÃO LHES ENSINAM O SIGNIFICADO DA PALAVRA RESPEITO, VOU ENSINAR NEM QUE TENHA QUE FICAR AQUI DEPOIS DO HORÁRIO...NÃO É POSSÍVEL QUE ESTOU AQUI BRIGANDO COM MARMANJOS DE 16 ANOS... NEM A TURMA DA QUINTA SÉRIE ME DÁ INCÔMODO COMO VOCÊS DÃO..."
As respostas da Raimunda eram bem bizarras e chocantes e nós parecíamos uns 10 retardados mentais rindo lá no fundão da classe...
"A piada deve estar boa..."
"Esconde o caderno...Esconde o caderno..." - sussurávamos nós meninas
"Se a piada ta boa quero rir junto..."
Claaaaaaaaaaro que ela tava sendo irônica, né?
"Guarda o caderno, caralho..." - Morgan sussurrou um pouco alto demais
Se um olhar de reprovação matasse, hoje papys e Helena estariam mandando meu corpo até o crematório mais próximo de casa.
Bem, o que aconteceu é que a Raimunda pegou o bendito do caderno e mandou nossa patota pra direção.
Levamos um esporro de baixar as cabeças, mas o riso não parava...
Folheava o caderno e suspirava com ar de surpresa com as respostas, ficava boquiaberta e ao folhear novamente e encontrar seu nome por lá, surtou:
"Falsidade ideológica é crime. Sabiam disso, né?"
A história havia ido longe demais...
"Se passar por outra pessoa é crime e dá cadeia, hein?"
Puta, que merda!
Minhas idéias sempre me condenam, mas eu estava com a consciência tranquila porque sabia que mesmo sendo dona do caderno, não havia sido eu que me passei pela Raimunda...
"Quem se passou por mim vai ter que provar que as informações constadas aqui são verídicas..."
"Foi uma brincadeira, diretora..." - Gui só jogou merda no ventilador
"Mas vocês já estão bem grandinhos pra fazer brincadeirinhas idiotas, não é mesmo?"
Sou da máxima: 'Se não tem nada a dizer, fique quieto (a).'
A FDP fez um puta terrorismo psicológico pra cima de nós que até demos uma olhadinha pra janela pra ver se já não tinham alguns policiais à paisana, helicópteros do SWAT, a imprensa em massa cobrindo a prisão de 7 alunos sem noção de um colégio estadual de curitiba.
Nada.
Salvos por um telefonema, porém antes de sairmos, com os cus que não passavam uma agulha, a Raimunda frisou bem seu castigo:
"Mas não pensem que não vou até as últimas consequencias pra descobrir quem fez essa brincadeirinha de péssimo gosto, diga-se de passagem..."
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
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