quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Sem ar

Curitiba, 05 de Novembro de 2003.

Ninguém lá no colégio se chocou com a notícia da morte do Ronei.
A Michelle hoje não foi à aula e os manos choravam.
Pra desvirtuar, ficamos focados no caderno e ele tava sendo preenchido rapidinho, o que me alegrou e até a chata da Andréa ta pedindo pra assinar.
Como apesar de não ir muito com a cara dela, tenho curiosidade de conhecê-la, deixei.
Hoje em dia o Gui nem fala mais da Andrea e ela também ta mais na dela, só pensando em estudar.
Hoje eu o vi e sei lá, tava tão serelepe, tão joselita, porém sei que quando to assim é chamariz pra tragédia e não podia ser menos que isso.
Encontrei o Adalberto no corredor da sala dos profes e a gente se cumprimentou normalmente, contudo, ele, sério, disse:

'Eu preciso conversar com você..."
"Eu... Eu fiz alguma coisa errada?"
"Não, não... Só preciso conversar com você..."
"Pode...Pode falar..."

A gente entrou na sala do professores e tava vazia. Ele fechou a porta, se sentou no sofá bordô de dois lugares e me chamou pra sentar ao lado dele:

"Tita, eu preciso te dizer uma coisa, mas você tem que me prometer que não vai chorar..."
"O que é?"
"Promete que não vai chorar?"
"Primeiro eu preciso saber do que se trata..."
"É o seguinte, Tita: a aula de hoje foi a última... o professor Eduardo volta amanhã..."
"Isso... isso quer dizer que você vai embora?"

Ele balançou a cabeça e eu balançava a minha pra tentar não chorar.

"Eu só queria mesmo te contar que você foi uma das alunas mais especiais que já tive..."

Foi.
Ah que pancada na cabeça, que dor no coração, maldito nó na garganta...

"Tem certeza que não vai chorar?"
"Não, não...eu vou ficar bem..."
"Te desejo tudo de bom nessa vida, Tita. Espero que continue lutando pelos seus sonho se superando sempre e nunca pare de escrever: você tem potencial pra ser uma grande escritora no futuro, mas pra isso tem que continuar estudando, viu?Você é uma menina linda, inteligente e tem muita chance de fazer a diferença, por isso nunca deixe de ser honesta, sincera e ah, ta muito magrinha, viu?Trate de engordar um pouquinho..."

Só ele pra me achar magra.
Não sei como consegui me despedir e não desmoronar aconchegada naquele abraço.
Quando ele me disse:

"Tchau..."

Disse tchau e a vontade de chorar aumentava tanto que já não conseguia mais respirar de tanta agonia.
Quando cheguei a cancha pra rever meus amigos (era aula de ed. física), tive uma crise de choro das piores e todo mundo ali sem entender o que tava rolando.
Quando contei, a Julia ainda me dá uma bronca dizendo que eu já devia saber.
Detesto quando a Julia quer bancar a dona da verdade e se mete a dar conselhinho. Aff!
Como chorei bastante e já era última aula, resolvi ficar no colégio mais um pouco até conseguir me acalmar e voltar pra casa.
Quando cheguei e até agora só sei chorar...
Minha vida perdeu COMPLETAMENTE a razão.

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