segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Começou tuuuuuuudo outra vez, por Tita (2003)

 Quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Começou tuuuudo outra vez

Curitiba, 17 de fevereiro de 2003.

Hoje foi meu primeiro dia de aula no novo colégio. Novamente as férias acabaram e lá vou eu à luta novamente. Provas, trabalhos, deveres de casa… começou tuuuuudo outra vez. :/
Sempre fui muito tímida, possui poucos amigos e por vezes já sofri bullying, mas nada que me impedisse de levar uma vida normal.
Logo criança meus pais se divorciaram e fui praticamente criada por minha mãe, que quando eu completei 5 anos, casou-se novamente.
Entre meus colegas eu era a exceção, enquanto hoje sou a regra.
O Horácio é um padrasto muito legal, não tenho por que reclamar dele. Mamys e Horácio não pretendem ter mais nenhum filho e eu admito que gosto de ser filha única, embora muitas responsabilidades me acometam.
Não que eu seja uma garota preguiçosa, mas não gosto muito de lavar a louça… se é que me compreendem, não é mesmo? Ah, confesso que não gosto de acordar cedo, em especial no frio.
Mas chega de blá-blá-blá… não gosto muito de primeiro dia de aula porque normalmente perco algum tempo até encontrar minha sala. Fico imaginando com que tipo de gente vou estudar e me desespero mais ao pensar que ainda há oito longos meses letivos me esperando.
Praticamente fui obrigada a me levantar e, com o belo humor que estava, vesti a primeira peça que vi ao abrir o guarda-roupa. Não estava com apetite nem mesmo para devorar uma barra de chocolate inteirinha.
Ao chegar à fachada da escola, conheci os lúgubres blocos onde permaneceria aquele ano inteiro.
Nosso colégio fica localizado muito perto de uma favela perigosa e sinceramente isso me traz angústia e medo.
Por onde olhava era uma multidão se cumprimentando, se empurrando para saber em que sala ficaria e eu ali, perdida na imensidão daqueles cinco blocos pichados e caindo aos pedaços.
O sinal enfim tocou… parecia mais uma sirene de ambulância… o que me deixou mais assustada do que já estava…
A diretora Raimunda Mascarenhas berrava com insistência pelo alto-falante e o som idêntico ao de uma caixa de abelhas tomava conta de todos os blocos.
Acho que ela deve ter passado mais de quinze minutos falando sobre o início de ano, as regras da escola (para assustar aos novatos) e falando sobre as reformas (imperceptíveis) na fiação e na pintura do colégio…
Sabia ao menos em que turma ficaria, então entrei na fila e permaneci ali. Foi então que descobri com quem estudaria.
Parecia que todos por ali já se conheciam e eu me sentia uma intrusa no meio daquela gente. Havia a garotinha tímida na minha frente e a espalhafatosa à frente da tímida. O roqueiro cabeludo fazia piadinhas sobre a diretora e muitos davam risada enquanto a Raimunda dava seu famigerado sermão, o qual disseram para me acostumar…
É verdade! Se quisesse continuar por ali, era melhor ouvir os conselhos dos mais experientes.
Risinhos durante o Hino Nacional e depois liberados! Minhas perninhas agradeciam!
Só tivemos aulas até o intervalo… ufa, ao menos sobrevivi ao primeiro dia!
Hoje mesmo eu ia rever meu pai depois de anos omisso.
Bem, não tenho lembranças significativas dele… só me recordo que minha mãe e ele se divorciaram quando eu estava completando um ano e que agora ele está casado com uma mulher chamada Helena, alguém que minha mãe detesta.
Notei que a Helena não foi muito com a minha cara, mas de qualquer forma terá de me aturar enquanto minha mãe está viajando.
Agora há pouco meu pai chegou do trabalho, nós conversamos sobre a escola e ele me veio com aquela com aquelas frases imbecis:
“Como você cresceu!”
Me deu uma vontade de dizer:
“Não, paizinho, eu encolhi!”
Ele nem sabe o dia do meu aniversário e incontáveis vezes ele ou ligou no dia 18 de novembro, ou 17 de outubro e até mesmo 17 de dezembro se esquecendo de que nasci no dia 17 de novembro. Parecia que era de propósito…
Percebi que apesar de toda simpatia e gentileza, Felix (assim que ele se chama) não se sentia muito à vontade ainda mais agora que será pai de um filho da Helena.
De tantas indiretas que dei, ele me deixou falar com minha mãe, mas não por muito tempo porque a cada um minuto a Helena ficava dando algumas indiretas e para não criar confusões, desliguei o telefone e resolvi escrever um pouco.
Estou com saudades da minha mãezinha e também com um pouco de medo do que irá acontecer amanhã, mas pior do que enfrentar a vida é não a enfrentar e eu não sou nenhuma covarde, não…

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