sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

E num clima de descontração e emoção chega ao fim o melhor ano letivo de todos...

Curitiba, 27 de Novembro de 2003.

Hoje as emoções variaram consideravelmente...
Brincadeiras e lágrimas fizeram parte do último dia de aula.
Chegamos no horário de sempre e já encontramos a Ana Carolina ficando com o menino que tava afim desde o começo do ano. Ficando não, eles estão namorando.
Até a chata da Eugênia tava legal e os que estavam lá organizaram a sala. Como o Gui ficou responsável pela parte do som, optamos em colocar um pouco de cada ritmo musical pra não permitir que a intolerância estragasse o nosso último dia juntos.
A Andrea e a Julia cuidaram dos doces, o Dico e o Cadu encheram as bexigas, o Ricardo trouxe o bolo, a Paloma trouxe os salgados e lá por umas 10 horas a sala tava lotada...
Um povo ficou responsável pela organização das carteiras, outro pra limpeza e todos puderam contribuir de alguma forma pro fervo.
Essa festinha ía rolar de qualquer jeito, todavia faltava só o sim da Raimunda que veio ontem.
O Ricardo deve ter comprado o bolo com a arrecadação que fizemos durante o mês todo e ah, dá uma tristeza pensar que no ano que vem vou estudar com outras pessoas e que nossa galera vai acabar porque cada um vai pra um canto diferente... :/
Cada grupo fez a revelação do amigo secreto começando pelo Gui que pegou o Rodrigo e zoou dando a ele um cd de heavy metal, mas daí falou sério e entregou o presente de verdade.
O Rodrigo pegou a Morgan( ganhou um bracelete) que pegou o Cadu e deu uma miniatura do Ozzy Osbourne.
O Cadu me pegou e me deu um caderno todo customizado com fotos da turma e quando o abri a primeira assinatura era a do Adalberto. Chorei...
Eu peguei o Gui e dei um casaco do Nirvana o qual ele vestiu na hora. Ele pegou a Ju e ofereceu uma lingua de sogra pra brincar, porém ela ganhou 3 bandanas( preta, vermelha e preta com detalhes coloridos).
A Ju pegou a Paty e deu a ela uma blusinha bem do jeito que ela queria e a Paty pegou o Ricardo.
Pra sacaneá-lo, embrulhou uma caneca do Atlético e o entregou...

"Puta, que sacanagem, hein?"

"To zuando...toma aqui teu presente, porquinho..."

Eis que chega o mais fanático dos Atleticanos e zoa com o Ricardo:
"Não sabe torcer, cara..."
"Ah meu, olha quem fala..."
"Quer pra você?" - a Paty perguntou
"Já era..."

O guri saiu feliz como se tivesse erguido a taça do campeonato brasileiro pelo seu time... :p
Rolou bagunça e depois choradeira compulsiva. Coitados dos meninos...
Resolvemos deixar as carteiras no clima de festa porque achamos ser os únicos, mas todas as turmas estavam fazendo festerê.
Só varremos a sala, jogamos os lixos fora e muita gente levou refri e comida pra casa.
Quando estávamos saindo do portão, somos abordados por granjas inteiras. Haja plantação de trigo...
Sabe o que isso me lembrou?A primeira noite em que passamos em Guaratuba e zoamos na picape do seu Geraldo...claaaaaaaro que entrei no clima...
O povo do terceirão se pintava com tinta guache e saía jogando papel higiênico em todo mundo, nas árvores, nos carros e dá-lhe ovo, catchup, mostarda e trigo...
Da quinta série ao terceiro ano não tinha um ser que não estivesse se divertindo ali naquela bagunça coletiva em frente a instituição de ensino que passamos nove importantes meses deste ano.
Nem na última semana de aula a Raimunda deixa de ser marrenta e vem lá na frente berrar, pedir pra cessar a algazarra, mas nossos risos gritos abafaram a voz dela que (bem-feito) levou tanta ovada que deve ter estragado o cabelo liso. Haaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...
Ainda bem que tiramos muitas fotos da festa e o Ricardo, mesmo levando ovo e trigo na cabeça, registrou quase tudo. A Morgan também...
Naquele 17 de fevereiro achei que não sobreviveria mais que dois ou três dias e hoje, 27 de novembro, olhando pra trás sinto saudade até dos dias tensos.
Foi por aqui que deixei mesmo de ser criança e vivi todos os meus grandes amores, fiz amigos e inimigos, soube a sensação de quase repetir de ano, de brigar pra valer, matar aula, perder o medo e joselitar, depois me arrepender, mas lembrar de tudo com um carinho especial.
Quem diria que seria neste colégio que eu viveria o melhor ano letivo de todos...

PENSOU QUE É O FIM???

Terceirão a vista :D

Curitiba, 27 de Novembro de 2003.

PAAAAAAASSEEEEEEEEIIIIIIIIII!!!
O Dico ficou pra final em quase tudo, o Cadu pegou final em História, o Ricardo também; a Paty passou direto e o Gui também, mas ficou todo se fazendo.
Íamos de sala em sala ver nossos resultados e até fiquei emocionada porque os profes comentaram que me esforcei tanto que mereci as ótimas notas que tirei.
VIU, 'senhorita' HELENA?AGORA ENGOLE O QUE FALOU DE MIM, SUA VACA!
Amanhã não tem nada, mas nossa turma já se organizou pra fazer uma festinha de despedida e fomos pedir permissão a Raimunda, que já envolvida pelo clima de Natal, permitiu.
Nem acredito que já estou de férias, cara...
Eu já tava me dando como reprovada e me imaginei tendo que estudar com a pirralhaiada do primeiro ano...aff...bate 3x na madeira...

Certezas à parte

Curitiba, 26 de Novembro de 2003.

Hoje foram realizadas as duas últimas provas e amanhã vamos ficar sabendo do resultado porque a partir da segunda-feira vai rolar a recuperação anual e no dia 08 é o conselho de classe.
O Dico tem quase certeza de que ta reprovado e ta frito porque a coroa dele nem sabe...
Eu to igual ao Dico, porém sendo pressionada pelos pais a passar porque senão vou apanhar de cinta até minhas costas ficarem em carne viva.
O Cadu ta passado, mas fica se fazendo e o Ricardo também...
A Ju, de qualquer forma, já ta de férias a uma hora dessas.
A Paty ta bem sossegada e o Gui falou que nem se estressa por causa de nota.
Hoje, depois das provas, resolvemos fazer um amigo secreto, então acordamos a Julia pra ela vir até o colégio participar do sorteio.
Fui pra casa e fiquei pensando no que meu amigo secreto poderia gostar, então peguei meus trocados e saí por aí pra dar uma espairecida (merecida, por modéstia parte), olhar as decorações de Natal e voltei pra casa lá pelo final da tarde.
Amanhã vamos ver quem é que vai entrar em férias e quem é que vai ter de passar mais uma semana acordando 06:00 da manhã...

Até o limite

Curitiba, 25 de Novembro de 2003.

Ando chorando por qualquer coisa que me dizem, cara. Será que estou bem?
Tudo bem, sempre fui conhecida por ser chorona, mas ultimamente to chorando até demais da conta e a Helena já descobriu que não estou menstruando.
Ainda bem que não tenho namorado (e mesmo que tivesse, não vivo de sexo) porque senão já estariam metralhando o coitado...
O pai e a Helena falaram que eu tenho que parar com isso(???) porque é loucura eu tentar combater uma barriga que, conforme eles, só existe na minha autoimagem distorcida...
Como se eles pudessem saber o que sinto de verdade...

Semana de provas

Curitiba, 24 de Novembro de 2003.

Desde quinta to afogada em livros.
Minha rotina no fds foi acordar e já ir estudar; almoçar e dar uma desculpa pra me exercitar (caminhar uma hora pelo bairro) porque disse aos meus pais que caminhar 60 minutos depois do almoço faz bem para o raciocínio, porém ando passando mal toda vez que faço isso: meus joelhos doem, tem horas que a tontura é tanta que vejo tudo escuro e meu coração chega a doer, me falta o ar e eu acho que vou morrer.
O problema é que continuo gorda, parecendo uma baleia... :/
Hoje tivemos prova de matemática, física e química. Amanhã é a vez de biologia, geografia e história; quarta temos português, inglês e sociologia.
Só passei mesmo em Educação Física e ufa, já entreguei os trabalhos... :)

Puta, que merda!

Curitiba, 20 de Novembro de 2003.

Neste fim de semana to proibida de sair de casa porque tenho que estudar pras provas, então vou sumir por uns tempos pra ver se garanto pelo menos o conselho de classe. :p
O pai e a Helena falaram que se eu reprovar, vou apanhar porque, segundo eles, minha obrigação é só estudar e nem isso eu faço direito.
Puta, que merda!

Até o ano ruim no fundo é bom

Curitiba, 19 de Novembro de 2003.

As aulas vão acabar meesmo na semana que vem. Isso pra quem passou por média...
Aula propriamente dita já não temos mais porque agora ta chegando a época das provas finais e na classe é só bagunça, pegação e até um certo clima de nostalgia... :/
O Ricardo vai fazer terceirão, o Rodrigo ta de recuperação em quase tudo, a Ju foi expulsa; a Paty nem sabe se vai continuar estudando, o Gui vai estudar à noite e o Cadu também, então acho que nossa galera vai mesmo se separar.
Poxa, que tristeza, cara!Quando enfim encontro uma turma pra me identificar, pirar, me fazer conhecer profundamente o significado de amizade, o ano acaba...
Acho que deve ser só na nossa turma que pagodeiro e roqueiro se entendem bem...
Estamos aproveitando tudo que podemos enquanto estamos juntos. Claro que prometemos manter contato, ser amigos pra sempre e tals, mas sei que no ano que vem outro grupo vai se formar e tudo vai mudar.
Nas duas primeiras semanas de aula foi o maior festerê e todo mundo falava com todo mundo. Depois do carnaval as panelinhas se formaram e era a maior empolgação na hora de formar os grupos pra fazer trabalho. Até aí, nada de novo.
Antes da Páscoa, as panelas estão brigando entre si e a panela de pressão está prestes a explodir... o lema agora é salve-se quem puder...
Clima de brigas e indiferença e então algumas turminhas se desfazem, outras ganham novos integrantes e as férias de julho chegam...
Depois do descanso do frio vem os bimestres da marmelada. Todo mundo que vadiou no primeiro semestre agora que ser o melhor aluno da classe e os interesses mudam. Sem que percebam, outro grupo já se formou há algum tempo e é ao lado dessas pessoas que nos divertimos e apesar das divergências, a tolerância que só é possível ser exercitada através da paciência e da convivência diária, nos faz enxergar bem além da fachada.
Quando vem feriado é um alívio e ao mesmo tempo uma tristeza porque apesar de às vezes bater aquela preguiça mortal de ir ao colégio e aguentar os malas da classe (sim, toda turma tem!), os amigos colorem o sol nas manhãs nubladas e o mau humor logo vai embora.
Além do mais, se não dá pra viajar, que graça tem o feriado, afinal? (pelo menos pra mim)
Acho que agora mais temos aula vaga do que nunca; daí ou ficamos na sala jogando conversa fora e o afamado stop, vamos dar umas voltas pelo colégio, sentamos no 'nosso' canto no muro e ficamos observando os carros passarem, os transeuntes e batemos mais papo ainda...
Só vou pra casa quando o Gui e o Dico vão pro trampo porque quero aproveitar cada segundo desse final de ano letivo que apesar de ruim às vezes, conturbado sempre, não deixou de ser divertido.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

FeLiz AniVersÁriO

Curitiba, 17 de novembro de 2003.

Pai e Helena me acordaram perguntando se eu queria ir mesmo à escola.
Normalmente eu diria não, porém preferi ir porque se ficasse em casa iria remoer a saudade da mamys, do Adalberto e ficaria chorando o dia todo, então me vesti e bora pro colégio...
Quando cheguei ganhei abraço de parabéns de todo mundo, mas o fervo meeeesmo foi no intervalo quando me seguraram e me deram 16 puxões de orelha (8 de cada lado) e cantaram parabéns pra mim.
Quando saímos da sala, o Cadu comentou:

"A gente ia te dar ovada, mas conhece esses 'pé de china', né?"
"Ta feliz hoje?" - a Morgan perguntou

Disse a ela que sim, mas na verdade eu tava com um baita nó na garganta...
A Julia me telefonou pra desejar parabéns e disse que ta fazendo uns 'trabalhos extras' pra não perder as provas, porém contou que vai mesmo ter de mudar de escola, o que é ruim porque no ano que vem nossa galera vai estar incompleta... :/

HAAAAAAAAAAAAAAAAA!PEGADINHA!!!!!!!!!

Na última aula fomos liberados 10 minutos mais cedo e eu me despedi de todo mundo porque disse que ia pra casa.
Desci as escadas no mor sossego, mas ao chegar ao portão, fui atingida por um ovo e depois por centenas deles e era um tal de voa catchup pra lá, mostarda pra cá, farinha na cabeça, entrando por dentro da blusa, batom na cara e até detergente (eca!).
Não dava pra saber quem era porque eram tantas pessoas atirando que eu até fiquei confusa.
Até a dona Julia também tava participando da sacanagem que só teve fim quando a Raimunda saiu do portão e mandou todo mundo pra casa ameaçando dar ocorrência pra quem permanecesse nas imediações do colégio.
Cheguei à casa parecendo uma caloura que cantou muito mal em um desses shows de talento na TV.
Acredita que em vez de brigar a Helena riu?Pois é... não só riu como suspirou de saudades dos seus tempos de adolescente...
Fui correndo pro banho, depois almocei e a Helena me deu um dinheirinho que ela e meu pai juntaram e este era meu presente.
Ela me deixou no centro e disse que minha tarde era pra me divertir, fazer compras, me sentir feliz...
Aproveitei pra visitar minha mãe no cemitério e acendi uma vela, conversei com ela, falei com Deus e não foi só uma oração normal. Abri meu coração e até chorei, o que me fez bem.
Bati perna no centro pra pegar umas promoções e voltei pra casa lá por umas sete da noite.
Estava exausta, diga-se de passagem... :p
Quando papys atende, vejo que a sala está toda decorada do jeito que minha mãe costumava deixar e estão lá meus melhores amigos, as pessoas que estiveram sempre ao meu lado. Revi o Horácio, minha vó (que lamentava não poder ir) e caí em prantos.

"Não mereço isso..."
"Claro que merece..." - papys e Helena diziam
"Esse ano foi difícil pra você, Tita. Agora vá relaxar..."

Fui abraçar minha vó, o Horácio e depois, do nosso jeito zuado de ser, fui falar com meus amigos e a gente foi pro quarto ver o que comprei...
Hoje eu comi pra caramba, mas poxa, se eu não puder abrir uma exceção no dia do meu níver, o que será de mim, hein?
Meu pai deixou a TV ligada na Mano's TV e como tava rolando uns clipes bem legais, ficamos conversando e dançando.
A festa durou até umas 23:00 só por ser uma segunda-feira e o que estraga mesmo é pensar que ainda temos aula até 05/12.
Levei o povo até a porta e fui à cozinha, mas a Helena não me deixou ajudá-la a arrumar nada, então escovei os dentes e vim pra cá escrever, ouvir mais músicas e ver as surpresas que ganhei.
To com tanto sono que dormiria 3 dias seguidos, se pudesse, mas estou tão feliz que vou ter os sonhos mais doces do mundo. :)

Reflexões de véspera

Curitiba, 16 de novembro de 2003.

Vou pensar que amanhã será um dia comum como hoje, assim não vou ficar triste quando pensar em tudo que vem acontecendo nesse ano de 2003.
Poxa, quando lembro de mim há um ano atrás nem me reconheço mais.
Ano passado eu nem dormi de tão ansiosa pros meus 15 anos e olha que eu sabia que nem ia ganhar festa de debutante com valsa nem nada até porque eu não queria mesmo hehe.
Meu desejo era ganhar um Beagle porque sempre amei muuuuito essa raça, sempre me preparei pra ter um cachorro e foi difícil convencer mamys de que o cãozinho traria muita alegria a casa e não incomodaria.
Foram muitas discussões, até que desisti de pedir...
Eis que naquela manhã de domingo sou acordada com lambidas no rosto e o amor é a primeira vista.
O resto não preciso nem dizer...
Meus primeiros dias de quinze anos passei cuidando do Cricri e estudando pras provas finais.
Já estava aprovada e tava querendo ir muito bem nas provas só pra fechar o boletim com notas boas porque mamys e Horácio haviam me prometido que se eu estudasse bastante, iria passar um mês na praia, contudo na última hora ocorreu um imprevisto e tive de me contentar em ver o litoral pela tela da TV.
Nas férias levei o Cricri pra vacinar, ceei no Natal e no Ano Novo com mamys e Horácio, fui alugar uns livros na biblioteca e fiquei esparramada no sofá vendo televisão o dia todo.
Depois que as aulas começaram eu mudei completamente e é até redundante dizer porque tudo que aconteceu está registrado nas páginas anteriores.
Certas coisas eu prefiro esquecer, enquanto outras eu guardo dentro do meu coração como aprendizagem e até com um pouco de nostalgia.
Sei que me arrepender agora e tentar fazer o tempo voltar só vai me deixar mal, então vou nessa...

Happy birthday o cacete

Curitiba, 15 de Novembro de 2003.

2 dias para meu aniversário. :/
Hoje acordei pensando no Adalberto porque sonhei que ele tinha voltado a lecionar na nossa classe.
Agora só resta dizer: foi bom enquanto durou. Foi pouco tempo, foi, mas o bastante pra marcar minha vida pra sempre.
Hoje a família toda saiu pra ir ao batizado da afilhada da Helena, então, como não quis ir, tive de limpar a casa inteira e depois fui ver um pouco de TV. Como sempre, nada que preste, com exceção, claro, da Mano's TV, mas como o pai e a Helena chegaram (eles ODEIAM a Mano's TV), coloquei no jornal e vim pra cá escrever.
Nessas horas eu sinto falta lá de casa, do jeitão diferente da mamys, da nossa relação amor-ódio, da liberdade que tínhamos pra conversar sobre (quase) tudo; dos apelidos engraçados que só ela estava autorizada a me chamar, de ficar esparramada no sofá vendo desenhos, a Mano's TV (mesmo que mamys não suportasse, me deixava assistir); de quando ela me fazia um agrado e SEMPRE era bem quando eu tava precisando muuuuuuuuuuuito...
Sinto falta do colo, do cafuné, da proteção que ela inspirava...
O que me resta agora?Apenas as fotos, aqueles momentos que marcaram mais e eles surgem em sequencia, me perturbam, me fazem querer voltar no tempo e não há nada nem ninguém que possa fazer minha dor parar de incomodar...
Não acredito que esse é o primeiro aniversário que vou passar sem mamys...
Se pudesse, pulava pro dia 18 de novembro logo de uma vez...
Comemorar o que, afinal?Um ano de vida a menos?A perda de mamys?Minha infelicidade no amor?
Foi-se o tempo em que eu fazia contagem regressiva pro dia 17... :/

Quem você menos espera...é quem mais te surpreende!

Curitiba, 14 de Novembro de 2003.

A Julia foi expulsa da escola!
Estamos todos nos recuperando da notícia que veio como uma punhalada na cabeça.
A Ju escreveu todas aquelas bizarrices?Caraca, a vida é mesmo uma caixinha de surpresas.
Particularmente estou mais chocada do que todo mundo porque sempre ficava com um pouquinho de inveja de ela ser toda ajuízada, obediente.
O caderno dela é o mais caprichado, a letra dela é a mais redonda e firme; ela sempre entrega os trabalhos e deveres de casa na data pedida; não fala palavrão (ou pelo menos eu achava que não) e não entrava nas porcagens da nossa galera, mas tudo mudou...
A própria Raimunda veio até nossa classe pedir desculpas por todo e qualquer inconveniente, mas não perdeu a oportunidade de descer o cacete na gente, né?Afinal ela adora fazer isso...
Tentamos fazer a Ju e o Dico se falarem (brigaram, brigaram, mas já voltaram a namorar) ou pelo menos descobrir qualquer coisa do paradeiro da Julia, então fomos até a Andrea e descobrimos que ela ta de castigo e vai ser mandada pra casa da vó pra ficar por um bom tempo.
Quanto as notas, pouco fazemos idéia de como vai ser...

*um dia eu conto com mais detalhes por que a Julia veio pra nossa patota e depois o Rodrigo se arrastou e trouxe o Ricardo junto.

Peças que não se encaixam

Curitiba, 13 de Novembro de 2003.

Hoje não precisamos cantar o sagrado hino, pois a Raimunda encontrou outra ocupação e parou de encher nossas paciências...ufa!
Estranho mesmo foi o fato de a Júlia, que nunca falta, nem ter dado as caras na escola.
Preocupados, fomos falar com a Andréa e ficamos mais alarmados quando soubemos que a Ju veio SIM ao colégio, mas não entrou.
Tem alguma peça nesse quebra-cabeça que não ta querendo encaixar.
Não acredito que a Ju vai arriscar a moral dela perante o colégio todo pra abafar uma brincadeirinha idiota que só aconteceu porque eu, a sem noção mor, ressuscitei a lenda do caderno de confidências...
To muuuuito agoniada...

Tempo de colocar os pingos nos is :/

Curitiba, 12 de Novembro de 2003.

Meu níver é na segunda e eu to tão maaaaal que to cagando e andando pra data.
Estamos em clima de desespero supondo o que Lisa Raimunda será capaz quando descobrir quem se passou por ela.
A Morgan ta susse, mas o Dico, o Ricardo e eu estamos amedrontados e eu, claro, a chorona de carteirinha da turma, me culpo por tudo que ta acontecendo, então o Gui e o Cadu tratam de levar o mau humor embora.
A Julia, cabeça da turma, comentou que quanto antes encerrar esse caso, melhor.
Amanhã mesmo iremos nos reunir pra colocar os pingos nos is...

E agora?

Curitiba, 11 de Novembro de 2003.

Hoje, na primeira aula, a Raimunda retornou a nos encontrar e fez TODOS assinarem uma folha de caderno e a própria iria conferir letra por letra pra descobrir quem foi.
Na última aula ela voltou não muito animada, porém disse:

"Quem fez isso foi muito astuto, não é mesmo?Acreditou que falsificando minha letra e minha assinatura impossibilitaria que eu descobrisse a farsa. Você pode até ser esperto, mas eu sou mais e vou continuar investigando pra saber quem foi e ah, não espere uma simples expulsão não...vai ser a pior punição já aplicada nesta instituição de ensino..."

Ah meu Deus!
De uma coisa eu tenho certeza: NÃO fui eu, mas foi alguém da minha patota.
Não me sinto bem pensando na idéia de ter de acusar meus amigos e nem de imaginar no que irá acontecer caso a punição prometida se cumpra.
Maldita hora que fui inventar de fazer caderno de confidências. Se não fosse por minha culpa, nada disso estaria acontecendo. :/

Chumbo grosso

Curitiba, 10 de Novembro de 2003.

Fim de semana vegetando e chorando muuuuuuito.
Segunda feira de volta às aulas e novamente abraçada pela saudade que certo professor deixou dentro do meu coração como lembrança dos dias mais felizes da minha vida.
Na hora do intervalo me deu uma crise de choro e meus amigos tiveram que me consolar...
Não demora muito pra Andrea chegar meio sem jeito pra devolver o caderno. A Ju, por ser irmã mais velha, já tratou de zoar com ela, mas tudo sempre termina numa brincadeira descontraída.
Depois que a Andrea saiu, resolvi abrir o caderno e uns cinco jegues vem se jogar em cima de mim pra ler tudo junto comigo...

"Eita curiosidade..." - a Morgan comentava

Me recuperei do 'susto' e disse:

"Depois vocês leem. A primeira sou eu porque sou a dona do caderno..."
"A Raimunda assinou?" - Ricardo (leso) perguntou
"Ahn?" - um coro perguntou
"Nada... não disse nada..."
"E mesmo que assinasse seria um puta tédio. Nome: Raimunda, idade: 50 anos; profissão: diretora vitalícia da nossa escola; estado civil: viúva; filhos: Meleca (o inspetor); estilo musical: música de igreja..."
"Tu sabe muito da vida da Raimunda, hein?" - o Rodrigo provocou o Cadu
"Ela é previsível, cara. Não é nem preciso investigar..."

Tocou o sinal e a gente foi assistir a aula seguinte.
Nos reunimos numas 10 pessoas pra ler o caderno e a cada pergunta um burburinho e risinhos, ambiguidade pairando no ar...
Nisso, bate alguém na porta e o profe vai atender: é a Raimunda.
Com cabelo liso ou não, a cara de poucos amigos continuava a mesma e com certeza lá vinha chumbo quente pra nossa classe:

"Esperei passar um pouco o clima das eleições pra ter essa conversinha com a classe de vocês..."
"Agora não dá mais pra tacar bolinha de papel no cabelo dela..." - devaneou o Cadu
"Tadinha, cara. Vocês não prestam..." - brincou a Morgan

O sermão era por conta das péssimas notas da turma e a alta taxa de evasão e reprovação em comparação as outras classes do colégio inteiro.

"Vocês não querem nada com nada, ficam só no oba oba fazendo bagunça, brincando, matando aula e depois acham que a escola é ruim, que a culpa é do professor que só falta, porém isso NÃO é desculpa, pois nem mesmo na época de eleições deixei que vocês fossem afetados perdendo conteúdo e é isso que recebo em troca: completo desprezo por parte de vocês. Não tem UM professor que não venha se queixar da vagabundagem coletiva e é com muita vergonha que venho aqui ver se consigo fazer vocês acordarem pra vida e perceber que o vestibular já é no ano que vem e se as coisas continuarem onde estão, sinto dizer, mas vai ser difícil passar..."

E eu lá tava com cabeça pra vestibular?

"Pô Tita, ta com moral, hein?" -  o Gui disse isso me dando cotoveladinhas
"Oi?" - tava sem entender bulhufas
"Se faz de rebelde e é a queridinha da diretora..."
"Ham?!"
"Olha quem assinou o caderno..." - apontou a Julia

Quando olhamos, tivemos um acesso de riso enquanto a diretora soltava fogo pelas ventas e escrevia a palavra respeito no quadro negro.
Na hora eu sabia que era palhaçada de algum piá babaca pra querer se achar o phodão, porém quando estou entre amigos, entro na brincadeira mesmo:

"Quem não conhece que a compre..."
"E fez questão de assinar por último..." - acrescentou o Gui
"Aaah Gui, já estragou a brincadeira... Vai, confessa que foi você..." - disse

Não era a letra do Gui muito menos do Cadu.  Lembrava formas femininas e não debochava tanto.

"PROFESSOR NÃO É PALHAÇO. SE SEUS PAIS NÃO LHES ENSINAM O SIGNIFICADO DA PALAVRA RESPEITO, VOU ENSINAR NEM QUE TENHA QUE FICAR AQUI DEPOIS DO HORÁRIO...NÃO É POSSÍVEL QUE ESTOU AQUI BRIGANDO COM MARMANJOS DE 16 ANOS... NEM A TURMA DA QUINTA SÉRIE ME DÁ INCÔMODO COMO VOCÊS DÃO..."

As respostas da Raimunda eram bem bizarras e chocantes e nós parecíamos uns 10 retardados mentais rindo lá no fundão da classe...

"A piada deve estar boa..."
"Esconde o caderno...Esconde o caderno..." - sussurávamos nós meninas
"Se a piada ta boa quero rir junto..."

Claaaaaaaaaaro que ela tava sendo irônica, né?

"Guarda o caderno, caralho..." -  Morgan sussurrou um pouco alto demais

Se um olhar de reprovação matasse, hoje papys e Helena estariam mandando meu corpo até o crematório mais próximo de casa.
Bem, o que aconteceu é que a Raimunda pegou o bendito do caderno e mandou nossa patota pra direção.
Levamos um esporro de baixar as cabeças, mas o riso não parava...
Folheava o caderno e suspirava com ar de surpresa com as respostas, ficava boquiaberta e ao folhear novamente e encontrar seu nome por lá, surtou:

"Falsidade ideológica é crime. Sabiam disso, né?"

A história havia ido longe demais...

"Se passar por outra pessoa é crime e dá cadeia, hein?"

Puta, que merda!
Minhas idéias sempre me condenam, mas eu estava com a consciência tranquila porque sabia que mesmo sendo dona do caderno, não havia sido eu que me passei pela Raimunda...

"Quem se passou por mim vai ter que provar que as informações constadas aqui são verídicas..."
"Foi uma brincadeira, diretora..." - Gui só jogou merda no ventilador
"Mas vocês já estão bem grandinhos pra fazer brincadeirinhas idiotas, não é mesmo?"

Sou da máxima: 'Se não tem nada a dizer, fique quieto (a).'

A FDP fez um puta terrorismo psicológico pra cima de nós que até demos uma olhadinha pra janela pra ver se já não tinham alguns policiais à paisana, helicópteros do SWAT, a imprensa em massa cobrindo a prisão de 7 alunos sem noção de um colégio estadual de curitiba.
Nada.
Salvos por um telefonema, porém antes de sairmos, com os cus que não passavam uma agulha, a Raimunda frisou bem seu castigo:

"Mas não pensem que não vou até as últimas consequencias pra descobrir quem fez essa brincadeirinha de péssimo gosto, diga-se de passagem..."

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quando eu acho que já vi de tudo...

Curitiba, 07 de Novembro de 2003.

Hoje tinha aula com o bruxo (profe Edu).
Só de pensar me dava uma raiva tão grande.
Cadê a euforia da semana passada?O Adalberto levou com ele pra nova escola, pra outra Tita sortuda, enquanto eu vou ficar chorando pitangas pra sempre.
Mergulhada em dores e suposições, certa de dias incertos e tão triste que nem sei descrever.
Como o horário mudou de novo nesta semana, nossa aula vaga ficou pra quinta aula e a quarta era adivinha com quem...
O caderno ta nas mãos da Andréa e na segunda volta pra mim...
Cara, quando bateu a sirene pro intervalo, fui pra ala do primário e me sentei numa escadinha perto da cantina onde resolvi ficar em silêncio e fora da vista de todos, podia pular o muro sem mais problemas.
Quando to lembrando duma coisa boa, eis que toca a música que me lembro do Adalberto...
Chorava tanto e quanto mais chorava, mais vontade dava.
Tocou a sirene e eu, que deveria ser ágil pra pular o muro, não conseguia sair do lugar porque estava soluçando.
Tentei respirar fundo, pensar em algo legal, mas nada vinha a mente a não ser a saudade dele.
Depois de um tempão a Carmen, que errou de ala, me reconhece e quando a vi, já pensei:

"Já to mal e ainda vem a velha pra me dar mais sermão..."
"Que foi, menina?Por que ta chorando?"
"Nada..."
"Ninguém chora por 'nada', menina. Que foi?"
"Eu to bem... não.. não precisa se preocupar..."
"Se estivesse tão bem quanto diz, não estaria aí rompendo em prantos, soluçando..."

Eu jamais imaginei que um dia a Carmen estaria chorando comigo, mas aconteceu.
Me senti mal por tê-la julgado mal o resto do ano...e saber que a mulher gosta tanto de mim...
Ela me disse que sempre pegou no meu pé porque, segundo ela, sou boa aluna e confessou que quando disse que queria ser professora de história, ficou lisonjeada e não quis demonstrar.
Me contou que não quer dizer que só porque o Adalberto saiu da escola que temos necessariamente de parar de se falar e até deu apoio pra sermos amigos...
Não contei que estou amando o Adalberto, mas falei da falta que ele ta fazendo...
Ela me disse que ia guardar nossa conversa em segredo e até prometeu não contar ao Edu que matei a aula dele, pois soube hoje que ela é mãe do Edu e vó da Julia, o que explicar por que Ju e Andréa nunca entravam nas nossas zueiras.
Acho que é hora de parar de fazer pré-julgamentos das pessoas e passar a conhecê-las melhor antes de fazer palhaçadas e colocar apelidinhos babacas.
Ela me levou pra tomar um copo d'água com açúcar e me deu um abraço de mãe, o que me fez parar de chorar e assistir o final da aula do bruxo, ou melhor, professor Edu.
Foi difícil não ficar triste, mas quando o profe me tratou com a sincera dignidade de sempre, me convidou a sentar e confessou que sentia muito pelo Adalberto, percebi que se preocupavam comigo.
Meus amigos já foram ver se eu tava bem e ficaram fazendo mil perguntas e tals. Revelei a eles o lance da Carmen só que esse segredo é da turma e ninguém além de nós pode saber.
Pra tentar me fazer rir, o pessoal, até a Júlia, começou a me lembrar do dia da lista de nomes, da Raimunda dando sermão e escrevendo no quadro, a bola de papel que ficou grudada no cabelo dela e muitos outros micos porque eu tava absolutamente melancólica.
No fundo imaginei como seria se o Adalberto estivesse aqui e pensei como pode ser alguém mexer tanto com você em menos de um mês?Só pode ser amor mesmo...

Difícil não pensar

Curitiba, 06 de Novembro de 2003.

Faltei aula hoje porque inventei que tava morrendo de cólica.
É mentira, pois faz tempo que não menstruo... nem faz falta mesmo...
Ando chorando tanto que até to com náusea, por isso fiquei vendo a Mano's TV só pra tirar um pouco a angústia, porém nem mesmo eles me fizeram rir.
Sabe quando por mais que a piada seja engraçada você não consegue rir?To bem assim.
Acho que esse não é mesmo meu ano.
Queria escrever uma poema, uma canção e até tenho inspiração, contudo não tenho força.

Sem ar

Curitiba, 05 de Novembro de 2003.

Ninguém lá no colégio se chocou com a notícia da morte do Ronei.
A Michelle hoje não foi à aula e os manos choravam.
Pra desvirtuar, ficamos focados no caderno e ele tava sendo preenchido rapidinho, o que me alegrou e até a chata da Andréa ta pedindo pra assinar.
Como apesar de não ir muito com a cara dela, tenho curiosidade de conhecê-la, deixei.
Hoje em dia o Gui nem fala mais da Andrea e ela também ta mais na dela, só pensando em estudar.
Hoje eu o vi e sei lá, tava tão serelepe, tão joselita, porém sei que quando to assim é chamariz pra tragédia e não podia ser menos que isso.
Encontrei o Adalberto no corredor da sala dos profes e a gente se cumprimentou normalmente, contudo, ele, sério, disse:

'Eu preciso conversar com você..."
"Eu... Eu fiz alguma coisa errada?"
"Não, não... Só preciso conversar com você..."
"Pode...Pode falar..."

A gente entrou na sala do professores e tava vazia. Ele fechou a porta, se sentou no sofá bordô de dois lugares e me chamou pra sentar ao lado dele:

"Tita, eu preciso te dizer uma coisa, mas você tem que me prometer que não vai chorar..."
"O que é?"
"Promete que não vai chorar?"
"Primeiro eu preciso saber do que se trata..."
"É o seguinte, Tita: a aula de hoje foi a última... o professor Eduardo volta amanhã..."
"Isso... isso quer dizer que você vai embora?"

Ele balançou a cabeça e eu balançava a minha pra tentar não chorar.

"Eu só queria mesmo te contar que você foi uma das alunas mais especiais que já tive..."

Foi.
Ah que pancada na cabeça, que dor no coração, maldito nó na garganta...

"Tem certeza que não vai chorar?"
"Não, não...eu vou ficar bem..."
"Te desejo tudo de bom nessa vida, Tita. Espero que continue lutando pelos seus sonho se superando sempre e nunca pare de escrever: você tem potencial pra ser uma grande escritora no futuro, mas pra isso tem que continuar estudando, viu?Você é uma menina linda, inteligente e tem muita chance de fazer a diferença, por isso nunca deixe de ser honesta, sincera e ah, ta muito magrinha, viu?Trate de engordar um pouquinho..."

Só ele pra me achar magra.
Não sei como consegui me despedir e não desmoronar aconchegada naquele abraço.
Quando ele me disse:

"Tchau..."

Disse tchau e a vontade de chorar aumentava tanto que já não conseguia mais respirar de tanta agonia.
Quando cheguei a cancha pra rever meus amigos (era aula de ed. física), tive uma crise de choro das piores e todo mundo ali sem entender o que tava rolando.
Quando contei, a Julia ainda me dá uma bronca dizendo que eu já devia saber.
Detesto quando a Julia quer bancar a dona da verdade e se mete a dar conselhinho. Aff!
Como chorei bastante e já era última aula, resolvi ficar no colégio mais um pouco até conseguir me acalmar e voltar pra casa.
Quando cheguei e até agora só sei chorar...
Minha vida perdeu COMPLETAMENTE a razão.

Sem cabeça

Curitiba, 04 de Novembro de 2003.

Agora que o ano ta chegando na reta final, fico triste ao pensar que vou me separar do meus amigos e, logicamente, dele. :/
Hoje mais gente assinou o famoso caderno e por pouco o MR. Dreads não pegou...
Também, né?O Ricardo é o cumulo da discrição em forma de gente, porém foi só alarme falso.
Terminei umas redações atrasadas do trabalho que tenho que entregar no dia 24 e depois fui ver um pouco de TV, porém como me recuso a ver aquela novela de merda, zapeei pra Mano's TV e conferi o Plantão dos Manos.
Fiquei arrepiada ao saber que encontraram o Ronei enterrado sem cabeça a três quadras do Bar do Jacinto.
Quando a Helena ouviu a notícia, começou a gritar e pedir pra eu mudar de canal porque não gosta de ver violência.
 Desliguei a TV e mandei um torpedo SMS pra Morgan que logo em seguida me ligou.
Pedi a ela que tentasse descobrir pra mim o que tava rolando lá na favela e como ela tem uns trutas bem antenados, não demorou 10 minutos pra eu ficar por dentro de tudo que ocorreu.
A mãe do Ronei estava preocupada, pois desde sexta-feira ele não dava notícia.
Procuraram em todos os DPS, bailes funk, reviraram a casa dele umas 100 vezes até que hoje, no início da tarde, uma pessoa que não quis se identificar, deu todas as pistas para a PM e então encontraram o corpo do Ronei em estado avançado de decomposição, porém sem a cabeça.
Fiquei mal e nem quis comer nada...

Caderno de confidências

Curitiba, 03 de Novembro de 2003.

Apesar das pesquisas de intenção de voto apontarem o profe Edu como favorito a direção do colégio, quem venceu foi a Lisa Raimunda.
Bem, hoje mostrei o caderno ao pessoal e começaram as assinaturas. Agora só quero ver...
Estava sentada no muro conversando com a galera e então o vi...
Fingi que fui pega de surpresa e contei como foi meu final de semana e tals, mas apesar de me tratar com a gentileza de sempre, notei algo diferente no olhar dele.
Ele foi pra sala dos professores e eu voltei pro muro bater papo e fazer bagunça.
Quem tava assinando o caderno era o Cadu e, é claro, todo mundo tava zoando o coitado, principalmente naquelas perguntas 'picantes'.
Tocou a sirene e fomos todos entrar em forma. O Gui ficou imitando a Raimunda fazendo polichinelo e ninguém de nós conseguia conter o riso durante o hino.
Normalmente isso nos custaria uma bronca vergonhosa diante de toda a escola, porém Lisa Raimunda estava de muito bom humor e fingiu que não viu.
Após o hino, a diretora testou o microfone e seu sermão foi bem susse, pois nos agradeceu por ter confiado nela mais uma vez e prometeu que na gestão que começa no ano que vem, vai lutar mais ainda pelo colégio, para fornecer o melhor ensino aos estudantes e nos alegrou saber que as oficinas do contraturno serão reabertas em 2004.
Serão elas: artesanato, língua estrangeira, teatro, música e reforço pra quem ta indo mal.
A Morgan e eu estamos pensando em nos inscrevermos pro teatro.
Depois do sermão, mais aulas e o caderninho passando de mão em mão.
Quero que todo mundo assine pra depois eu ler e ver quem mente mais: o homem ou a mulher.

Entre amigos...

Curitiba, 02 de Novembro de 2003.

Ontem a turma ficou passeando e dormiu na casa do Cadu.
Hoje pela manhã meu pai veio me buscar e a gente foi visitar mamys.
Orei por ela, deixei umas flores na lápide e pedi pra ficar sozinha por alguns momentos.
É só pensar naquele mês de Julho e meus olhos ainda enchem-se de lágrimas.
É mais forte do que eu e parece que foi ontem quando me contaram a notícia e eu não tinha forças nem pra cair no chão, protestar que era uma mentira.
Fiquei completamente desolada, perdida, odiei Deus, o amaldiçoei por ter tirado de mim a ÚNICA pessoa que realmente me amou.
Depois pedi perdão, pedi consolo, respostas que pudessem confortar meu coração e então, numa linda manhã de outubro, eis que conheço o grande amor da minha vida.
Será que hoje ele também ta triste por lembrar (relembrar) alguém que não está mais aqui?
Como não quero chorar, ficar depressiva e me culpar, vou contar o que aconteceu na depois da votação.
Sexta feira foi só curtição entre amigos, mas não deixei a dieta de lado não.
Vi brigadeiro, bolo, refri, porém lembrei das calorias e dei meia volta da mesa.
Claro que a dor de cabeça era infernal, então comi um pedaço de torrada sem nada por cima, bebi um pouco de suco e pronto.
Foi bem massa porque pouca gente veio à festa, então deu pra fechar a casa e ir até o cemitério.
Chegando lá só com as lanterninhas na mão, sentamos formando um círculo, em cima de um mausoléu, mais conhecido como a tumba do metal. Só o Gui pra inventar esses points sem noção...
Bem, o próprio Guilherme, antes de começar a contar a primeira história macabra da noite perguntou:

"Têm certeza de que têm estômago pra continuar por aqui?"
"Pô, né?Claro!" - Dico resmungou (abraçado na Julia)
"Tuas histórias nem metem medo, Gui..." - Cadu zoou
"Não quer que eu conte pra Tita que você cagou nas calças no halloween passado, né?Então, shut up."
"Viu Tita, é mentira desse FDP..."
"E essa história começa ou não?" - Morgan se amarra em histórias de terror

Depois do Gui foi a vez do Cadu, depois a Morgan e novamente o Guilherme, como sempre, querendo tirar o primo pra cagão.

"Essa história é de arrepiar, hein?Ta de fralda, né, Cadu?"
"Vá a puta que pariu..."

Os contos não metiam medo nem em criança de 5 anos, mas mesmo assim demos muitas risadas.
A gente caminhou pelo escuro e, é claro, os meninos malas ficavam nos assustando a cada metro percorrido dentro do cemitério.
Justamente eu levei a pior porque gritei bem em frente da casa do coveiro (sem saber, claro) e ele acendeu a luz pra ver o que tava acontecendo:

"Quem que ta aí?"

Foi um Deus nos acuda, uma infinidade de rezas e instintivamente pulamos o muro e saímos correndo que nem loucos pela rua.
O Ricardo, como sempre, desastrado, ficou só de cueca porque, segundo ele, quando escalava o muro, um fio da calça se soltou e sem tempo pra vaidade, não quis vacilar.
Foi um sarro!
Ficamos rindo por horas e fomos dormir lá pelas sete da manhã, acordando as 13:00 graças a um telefonema dos pais do Gui só pra checar se estava 'tudo bem'. E como tava...
Almocei duas torradas e um copo de suco. Depois bora sair mais...
Fizemos um passeio pelo bairro, demos um role no shops...
As minas e eu fomos dar uma olhada nas vitrines de roupas enquanto o Cadu, o Dico, o Gui e o Ricardo foram ver videogames.
A gente se encontrou na praça de alimentação, se reuniu numa mesa e comprou uma lata de sorvete pra repartir em 7 pessoas.
Zoamos com as patricinhas pagadoras de mico, de quem tava passando, de nós mesmos, dos nossos problemas, zoamos do povo do colégio e assim o tempo passou.
O Cadu e o Gui nos convidaram pra assistí-los treinando e a gente ainda brincou nos skates.
Em seguida fomos ao fliperama e dividimos um pacote enorme de salgadinho e refri entre 7, porém preferi beber água e só comi porque meus migos insistiram muuuito.
Com os créditos que ganhei no 'flipe',  peguei umas balinhas e o povo encheu minha mochila de guloseimas: balas, pirulitos, chicletes, paçoca, guarda-chuvas de chocolate e mais coisas gostosas hehe...
Daí ficamos caminhando, pensamos em entrar num barzinho, porém ninguém tem idade ainda (eta pirralhaiada) e voltamos pra casa onde ficamos conversando, ouvindo música, vendo TV.
Só o Ricardo e o Rodrigo pra ficarem que nem uns bestas vendo filme pornô.
A Julia, toda recatada, tava morreeeendo de vergonha:

"Ah Rodrigo, que falta de respeito, cara..."
"To duro já..."

Ela deu uma almofadada nele:

"Você é nojento, cara..."

É, né?Toda turma tem que ter um punheteiro de plantão...

"Depois que você transar de verdade não vai mais achar graça nesses filminhos pra gente virgem..."
"Ah Cadu, vá se foder... Que é isso?O sujo falando do mal lavado?Tu é o maior punheteiro de todos e é bem virgem até onde eu sei."
"Sou nada..." - o Cadu se defendia
"Gosta de mentir em caderno de confidências..."

Pois é, me lembrei de ter assinado muitos, então lembrei que quando era BV respondia que não era porque, sabe, depois que descobrem você vira chacota pros teus amigos.
Achei, no meio dos meus cacarecos, um caderno virgem e resolvi fazer um caderno de confidências o qual levarei amanhã pro colégio e vou fazer todo mundo assinar, aí quero ver.

Por mais alguns dias

No mesmo dia...

O povo bem que tentou me fazer comer, mas soube dizer NÃO em alto e bom tom sem ser estúpida.
A votação acabava às 16 horas, então estaria livre pra conversar com o Adalberto.
Minhas pernas pareciam pesar uma tonelada, meu coração disparava freneticamente, meu rosto enrubescia e as palavras fugiam de mim mesmo que estivessem evidentes.
A Morgan pedia pra eu me acalmar e a Julia falou que eu só deveria me declarar se tivesse certeza que ele também sentia o mesmo.
Bem, como é que eu ia saber se não arriscasse tentar?
Os minutos passavam e a aflição começava dentro de mim.
Se não fosse hoje não seria mais nenhum dia porque depois do que aconteceu com mamys, parei de fazer planos a longo prazo.
Pra não parecer afoita, pedi a Morgan que vigiasse discretamente o Adalberto.
Ele entrou na sala dos professores, demorou um tempo por lá e saiu pela porta de emergência indo direto pro estacionamento.
Segunda feira as aulas com o profe Edu voltariam e eu, a essas alturas, já chorava por saber que a oportunidade esteve presente e eu a perdi.
A Julia disse que era melhor esquecer 'essa bobagem' porque era só uma paixonite.
O Cadu me contou porque quando a Morgan veio me contar que ele tava indo pro estacionamento, corri feito louca e quando cheguei lá ele tava entrando no carro.
Quando me viu, acenou e quando notou que eu chorava, desceu do veículo e perguntou:

"Que foi, Tita?"
"Eu sei que você ta indo embora..."
"Pra casa..."
"E da escola?"
"Quem disse?"
"Ta todo mundo dizendo que..."
"Eu vou ficar até o final do ano..."
"Mesmo?"
"Isso faria minha aluna preferida parar de chorar?"

Tentava conter os soluços, então fui à direção dele pedir um abraço e, é claro, o ganhei.
Escutei uns aplausos dos meus amigos  palhaços e já comecei a rir.
Me despedi dele e fui ao encontro do pessoal: vai ter uma festinha de halloween bem massa na casa do Gui porque novamente os coroas dele sairam de viagem pra Aparecida do Norte.
Não vai ser uma festa igual a do Dia do Rock, mas ia bombar e como eu só soube em cima da hora tive de ligar pra casa pedindo permissão e como hoje era níver da Helena , podia pedir até um AR15 que ela me dava, então comprei uma xícara personalizada, um cartão o qual preenchi uns dizeres e passei lá pra entregar.
Parecia que havia dado a fonte da juventude pra ela.
Chorou feito criança quando leu o cartão e como mamys sempre disse: tenho dom pra tocar os corações das pessoas.
Ganhei um baita dum abraço e os abraços da Helena além de fortes são esmagadores.
Bem, já arrumei minha mochila e to indo pra festa... Até mais!

Lisa Raimunda

Curitiba, 31 de Outubro de 2003.

Hoje, pra acompanhar as eleições, todos fomos ao colégio.
O Adalberto estava trabalhando como fiscal na sala de história junto com o profe de biologia.
Quase morri só pra entregar minha identidade pra ele.
Mico!Mico!Mico!
Em quem votei?Profe Edu, com certeza.
Na verdade se eu não tivesse conhecido o Adalberto iria votar na Raimunda...
Cara, só pode ser loucura o que eu fiz: voto em alguém por um motivo egoísta.
Eta Tita sem noção...
O Cadu, a Ju, a Morgan, o Dico, a Paty, o Ricardo e eu ficamos conversando sentados na escadaria (a mesma em que o Cadu se quebrou saltando de skate).
O profe Edu disse que independentemente do resultado, sentia-se feliz por ter entrado na disputa, por isso foi corrigir trabalhos atrasados e nem saiu da sala dos profes.
Já a Raimunda...
Quando a vimos pensamos até que era alguma repórter da TV vindo fazer a cobertura das eleições, porém assim que nos viu, acenou:

"Já votaram?"

Sim, ela estava de cabelo liso.
A Raimunda, que sempre apareceu em público sem maquiagem, cabelo despenteado e roupas de ginástica, estava outra pessoa. Ficava mesmo difícil de reconhecer nossa diretora e sem pagar pau, ela deveria se cuidar sempre, pois ela não é feia.
Zoamos com o Cadu dizendo que ele ficar com a Raimunda e ele ficou puto, porém depois sacou que era brincadeira e revidou.
A parte mais difícil é agora: o almoço.
O pai me deu uns trocados pra comprar lanche, mas como ultimamente ando envolvida demais no colégio, to me exercitando pouco e como consequencia, engordando horrores, então trouxe de casa minha garrafinha de água e to alimentada...

AGORA OU NUNCA?

Curitiba, 30 de Outubro de 2003.

Amanhã não temos aula, mas temos de comparecer a votação, que contará como presença.
Os profes que não estão em chapa nenhuma serão monitores de votação, então se eu não me declarar pro Adalberto posso nunca mais ter a chance.
Na minha imaginação estou bem bonita, com um vestido muuito sensual, batom vermelho e ele está de black tie, todo formoso em seus 1 e 80 de altura, arrancando suspiros de uma adolescente apaixonada.
Estamos nos declarando debaixo da árvore dos namorados lá na escola e ele enfim decide me beijar.
Acaricia meu rosto com as pontas dos dedos e vai se aproximando, fechando os olhos e...
Bem nessa hora não consigo enxergar nem sonhar mais nada, o que é lamentável...
A Morgan disse que quer pagar pra ver a minha declaração.

"Ah Tita, cala a boca. Duvido que você vai se declarar..."

Esse é o tratamento entre Morgan e eu...heheh

"Ah é, bundona?Paga pra ver!"
"E pago mesmo..."

O Cadu nada diz, mas sei que ele não curte muito a idéia...

Toda vez que penso em mim e no Adalberto não consigo não chorar, não saber imaginar minha vida sem as mãos dele pra me guiar na escuridão.
Ele foi a melhor coisa que me aconteceu nesse ano e eu sei que o que sinto vai durar pra sempre.

Coração em pedaços

Curitiba, 29 de Outubro de 2003.

Consegui fazer as pazes com a Van e foi mais fácil do que eu pensava.
Achava que éramos diferentes, mas vivemos os mesmos dilemas: justamente as pessoas que mais amamos são as que mais nos decepcionam.
Nem preciso contar que todo mundo, depois do que houve, olha com nojo e não quer manter conversa.
Ela, pela primeira vez, mostrou que é tão triste quanto eu.
A Van até queria ir ao velório do parceiro da Josenilda, mas nem a própria mais quer vê-la.
Meu coração ta em pedaços por saber que uma amiga ta em apuros e eu fiquei um tempão sem falar com ela por causa de uma discussão, mas já que o momento era de acerto de contas, questionei:

"Por que você inventou aquilo de mim?"
"Pra zuar..."
"Não foi só pra zuar... Eu te dei algum motivo pra isso?"
"Nunca..."
"Então por que denegriu minha imagem perante o povo da sala?Até hoje ouço piadinhas de mau gosto de alguns colegas por causa disso..."
"Quem falou isso?"
"Vanessa, eu não sou surda. Eu ouvi tudo..."
"Ahn..."
"Por que não falou de mim na minha presença pra eu pudesse me defender?"
"Porque eu não queria mais nem olhar pra tua cara."
"Eu fiz ou disse alguma coisa que te machucou?"
"Não. Nunca."
"Então?"
"Tava com inveja..."
"Inveja... Inveja de mim?"
"É..."
"Ah Vanessa, credo!Destruiu minha vida por causa da inveja?"
"Lá na quebrada 'tudo os piá tava querendo' ficar com você e eu tava de rolo com o Mano Kaskka, mas ele disse que entre a gente não rolava mais nada e me perguntou se você ficaria com ele... Agora já foi, ele já morreu, eu já deixei de gostar, mas naquele dia eu amava muito ele, então nem podia te olhar nos olhos de tanto ódio... Até pensei em te matar e pra não sujar minhas mãos com seu sangue, inventei um monte de mentiras sobre você pra tentar te destruir, pra baterem em você pra que saísse da escola e deixasse o território livre pra mim...Você tava acabando com meu reinado na quebrada, no colégio. Eu precisava colocar você no seu lugar, cara..."

Desatei a chorar.
Eu gostava tanto dela, a considerava a irmã que nunca tive e recebi isso em troco?

"Por causa de homem, poxa?Homem tem em tudo quanto é canto..." - lamentei
"NÃO É ASSIM!" - ela berrou
"PORRA, CARA, NÃO ACREDITO QUE VOCÊ ME FEZ PASSAR POR UM MONTE DE HUMILHAÇÃO POR CAUSA DE UMA FODA?VOCÊ PODIA FAZER BOM USO DO CARA PORQUE NAQUELA ÉPOCA EU AMAVA O GUI E NINGUÉM MAIS ME INTERESSAVA..."
"ENTÃO POR QUE VEIO AQUI?"
"VIM AQUI PORQUE QUERIA SABER COMO VOCÊ TA."
"NÃO QUERO TUA PIEDADE. NÃO QUERO NADA QUE VENHA DE VOCÊ..."
"NÃO VIM FAZER PORRA NENHUMA DE CARIDADE, IDIOTA."
"NÃO ME CHAMA DE IDIOTA..."
"POIS É UMA IDIOTA SIM!MUITO IDIOTA!TÃO OTÁRIA PRA BRIGAR COM UMA AMIGA POR CAUSA DE HOMEM...MAIS IDIOTA POR COMPRAR CONFUSÃO Á TOA E ENVOLVER NA HISTÓRIA ALGUÉM QUE NÃO TINHA NADA A VER E PAGOU COM A VIDA... SERÁ QUE VOCÊ DORME EM PAZ?POIS ACHO QUE A FAMÍLIA DA PRI NÃO DORME..."

Calei a boca da vadia. E eu que havia pensado em tentar recomeçar nossa amizade.

"Realmente só perdi tempo vindo aqui discutir com você..."

Saí de lá chorando e fui pro colégio...
Encontrei o Adalberto no portão e perguntei se ele tava ocupado.
Tentei não chorar na frente dele e depois da conversa me senti mais tranquila.
Nunca pensei que minha presença pudesse gerar tanto desconforto...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Menino do subúrbio a música que ofende e ao mesmo tempo fala as verdades que a sociedade ignora e não deixam você acreditar

Tem uma música dos manos que é muuito boa, tanto que vou transcrever aqui e, olha, até a mamys, que nunca curtiu muito rap, tirou o chapéu.

A canção se chama Menino do subúrbio...

Menino do subúrbio
letra e música: Márcio (Mano Jaburu)

Tem dias que não aguento e preciso escrever ou serei estrangulado por uma gangue de palavras não ditas...

Existe mesmo liberdade quando as armas substituem o diálogo?
Existe espaço pro amor verdadeiro em meio a conveniências?
A vida que vejo no telejornal não é o cotidiano da mundo real
Cadê o dinheiro destinado para os serviços do povo, deputado?
Vai aparecer aqui com cesta básica pra poder vencer as eleições
Memória curta te reelege, mas tua moral não reergue
Existe mesmo justiça num mundo em que deus é o dinheiro?
Dois pesos, duas medidas; a longa espera prevalece
o apelo morre antes de ser feito; a mentira se ensoberbece
Márcio da Silva, negro, 17 anos, jovem preso em flagrante
A polícia disse a imprensa que ele era mais um traficante
Sociedade está no pedestal acima do bem e do mal
pra falar, falar, mas continua sem fazer nada pra ajudar
Histórias como as minhas sempre começam assim
menino do subúrbio, humilde e sonhador, caiu nas drogas
se viciou, nunca mais largou, pelo crack morreu e matou

Em vão existências vêm e vão, tantas canções em vão
meras estatísticas da população, sonhos morrerão
A história se repete todos os dias, vista grossa é o que há
É bom falar mal, é bom julgar, é bom aprender a se colocar
no lugar de quem não tem nem espaço pra falar
Vivendo na ilha do faz de conta o orgulho afunda
Pra ser alguém tem mais é que mostrar a bunda

Existe mesmo alguma mudança que se possa notar, apreciar
ou é baboseira pra nos iludir no último ano de mandato?
Existe alguma esperança pra nação a não ser se conformar?
Ver meus amigos partirem, o mundo, aos poucos, se acabar?
Num mundo em que deus é o dinheiro, é matar ou morrer por ele
morrer de fome e viver aprisionado quando quem pode proteger
antes de mesmo de confortar, arromba tua porta pra atirar
se é inocente ou culpado ninguém nem vai se importar
Histórias como as minhas sempre começam assim
menino do subúrbio, humilde e sonhador, caiu nas drogas
se viciou, nunca mais largou, pelo crack morreu e matou

Em vão existências vêm e vão, tantas canções em vão
meras estatísticas da população, sonhos morrerão
A história se repete todos os dias, vista grossa é o que há
É bom falar mal, é bom julgar, é bom aprender a se colocar
no lugar de quem não tem nem espaço pra falar
Vivendo na ilha do faz de conta o orgulho afunda
Pra ser alguém tem mais é que mostrar a bunda

Existe mesmo verdade em tudo que diz o telejornal?
Faz tempo que parei de ver TV, depois que entendi
que prevalece a voz de quem cultua o deus dinheiro
sou um nome fraco, outro que sucumbiu ao mundo cão
outro drogado desolado com uma pistola na mão
Pra roubar moedinhas te parando no sinaleiro
dizendo o que nunca queria dizer, disparando sem querer
massacrado e sem liberdade, é assim que termina
a história do bandido que você viu na reportagem...

domingo, 3 de janeiro de 2010

Pra QuEm TeM CoRaGeM

Pra quem tem coragem
Autora: Tita

De drogado a santo
sem saldo negativo
dos tantos pecados
já foi absolvido

passaporte pro céu
carimbou outrora
de joelhos implora
para sair da miséria

tantas mil oferendas
pedir é seu lema

De réu a juíz
arrogante aprendiz
por dinheiro já matou
e agora prega
o que nunca honrou


por salvo estar
é livre pra pecar
perdão sempre terá
o paraíso é seu lugar

De assassino a profeta
o sobrado é a meta

quantos otários mais
 você vai enganar?
quanto mais vai mentir?

face do bem, anjo do mal
nem sempre o diabo
é o verdadeiro vilão

quando não precisou
pro mundo logo voltou
desrespeitando as normas
criadas pra amedrontar
quem já nem tem mais
um sonho pra acreditar

não desonre o nome
de quem por ti morreu
não se acomode
o céu pode não ser seu

pouco posso saber
o suficiente pra entender
que não tem verdade
em nada do que diz

tantas mil oferendas
pedir é seu lema
vale passar fome
amaldiçoar o irmão
comercializar a palavra
churrasquinho de gente
antes prefiro ser
do que dividir o paraíso
com gente como você.