quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Quando eu acho que já vi de tudo...

Curitiba, 07 de Novembro de 2003.

Hoje tinha aula com o bruxo (profe Edu).
Só de pensar me dava uma raiva tão grande.
Cadê a euforia da semana passada?O Adalberto levou com ele pra nova escola, pra outra Tita sortuda, enquanto eu vou ficar chorando pitangas pra sempre.
Mergulhada em dores e suposições, certa de dias incertos e tão triste que nem sei descrever.
Como o horário mudou de novo nesta semana, nossa aula vaga ficou pra quinta aula e a quarta era adivinha com quem...
O caderno ta nas mãos da Andréa e na segunda volta pra mim...
Cara, quando bateu a sirene pro intervalo, fui pra ala do primário e me sentei numa escadinha perto da cantina onde resolvi ficar em silêncio e fora da vista de todos, podia pular o muro sem mais problemas.
Quando to lembrando duma coisa boa, eis que toca a música que me lembro do Adalberto...
Chorava tanto e quanto mais chorava, mais vontade dava.
Tocou a sirene e eu, que deveria ser ágil pra pular o muro, não conseguia sair do lugar porque estava soluçando.
Tentei respirar fundo, pensar em algo legal, mas nada vinha a mente a não ser a saudade dele.
Depois de um tempão a Carmen, que errou de ala, me reconhece e quando a vi, já pensei:

"Já to mal e ainda vem a velha pra me dar mais sermão..."
"Que foi, menina?Por que ta chorando?"
"Nada..."
"Ninguém chora por 'nada', menina. Que foi?"
"Eu to bem... não.. não precisa se preocupar..."
"Se estivesse tão bem quanto diz, não estaria aí rompendo em prantos, soluçando..."

Eu jamais imaginei que um dia a Carmen estaria chorando comigo, mas aconteceu.
Me senti mal por tê-la julgado mal o resto do ano...e saber que a mulher gosta tanto de mim...
Ela me disse que sempre pegou no meu pé porque, segundo ela, sou boa aluna e confessou que quando disse que queria ser professora de história, ficou lisonjeada e não quis demonstrar.
Me contou que não quer dizer que só porque o Adalberto saiu da escola que temos necessariamente de parar de se falar e até deu apoio pra sermos amigos...
Não contei que estou amando o Adalberto, mas falei da falta que ele ta fazendo...
Ela me disse que ia guardar nossa conversa em segredo e até prometeu não contar ao Edu que matei a aula dele, pois soube hoje que ela é mãe do Edu e vó da Julia, o que explicar por que Ju e Andréa nunca entravam nas nossas zueiras.
Acho que é hora de parar de fazer pré-julgamentos das pessoas e passar a conhecê-las melhor antes de fazer palhaçadas e colocar apelidinhos babacas.
Ela me levou pra tomar um copo d'água com açúcar e me deu um abraço de mãe, o que me fez parar de chorar e assistir o final da aula do bruxo, ou melhor, professor Edu.
Foi difícil não ficar triste, mas quando o profe me tratou com a sincera dignidade de sempre, me convidou a sentar e confessou que sentia muito pelo Adalberto, percebi que se preocupavam comigo.
Meus amigos já foram ver se eu tava bem e ficaram fazendo mil perguntas e tals. Revelei a eles o lance da Carmen só que esse segredo é da turma e ninguém além de nós pode saber.
Pra tentar me fazer rir, o pessoal, até a Júlia, começou a me lembrar do dia da lista de nomes, da Raimunda dando sermão e escrevendo no quadro, a bola de papel que ficou grudada no cabelo dela e muitos outros micos porque eu tava absolutamente melancólica.
No fundo imaginei como seria se o Adalberto estivesse aqui e pensei como pode ser alguém mexer tanto com você em menos de um mês?Só pode ser amor mesmo...

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