Curitiba, 17 de Março de 2003.
Sabe aquele tipo de dia que a gente não devia ter acordado?Hoje está sendo um destes dias terríveis...
Hoje a Carmen fez um teste surpresa e eu levei bomba... não só levei bomba como fui parar no gabinete da Raimunda...Também, né?Rasguei a prova na cara da professora...
A parte pior foi ter que ouvir o sermão da Raimunda... :/
Ta certo, sei que já estou há mais de 10 dias na casa da Van e a mãe dela ta pouco cagando se a filha tira dez ou não. Como diz ela, o importante é tirar 5,0 (a média aqui na escola) e não reprovar.
Não sei como a Vanessa consegue passar de ano se vive se divertindo. Hei, havia me esquecido que a Van já reprovou duas vezes o segundo ano...
Eu, até hoje, nunca tirei zero numa prova...Bem, pelo menos até hoje...
Cheguei à escola com uma dor de cabeça terrível e também não é pra menos: bebi feito uma porca ontem numa festa que o Ronei convidou a gente.
To com toda moral, amiga dos manos, convidada VIP em festas... Que sonho! :)
Ninguém me avisou que o horário havia mudado e quando achei que teria aula de Matemática encontro a Carmen chegando.
A profe faz a chamada e em seguida avisa:
"Deixem em cima da carteira apenas uma folha de caderno, lápis, borracha e caneta. Guardem todo material debaixo da mesa, engulam o chiclete, tirem os bonés. Iremos fazer uma provinha..."
"Prova? "- o Gui perguntou
"Sim, senhor. Prova."
"Merda..." - pensei
"A gente não devia ter vindo..." - a Van cochichou comigo
Concordo com ela.
"Detesto aluno que enche linguiça e detesto mais ainda marca de errorex na folha. Desconto um décimo a cada vez que vir errorex borrando o papel e mais: abomino erros de ortografia em prova, por isso tratem de estudar, pois se estão pensando que sou uma professorinha qualquer, estão redondamente enganados."
Eu até sabia um pouco sobre o Descobrimento do Brasil e espremendo minhas memórias lembrava do que ela havia explicado sobre Maias e tals, mas não foi por isso que acabei rasgando a prova.
Com o conhecimento que tinha, garantia um 5 na tampa, mas aqueles 50 minutos seriam mais infernais do que eu pensava.
Parece que a Carmen cismou comigo, o que já me deixou bem mais nervosa do que estava em virtude daquela prova-surpresa-desagradável. A velha pegou no meu pé por cada motivo sem pé nem cabeça.
"Você ta sentada muito perto da mesa do mestre. Queira ir para trás da moça ali(Vanessa)."
Fui sentar e tentar me concentrar na prova, mas logo a mulher veio com outra sandice:
"Você ta escrevendo errado, mocinha. Desculpa pra colar..."
"Mas eu sempre escrevi assim, professora. Sou canhota."
"Se eu ver vocês ou qualquer um desta turma colando, os dois ou as duas tiram zero e vão pra sala da Raimunda."
Enquanto falava isso, pelo menos uns cinco espertinhos estavam colando e ela implicando justamente comigo...Puta injustiça, meu.
Não passou nem mesmo uns dois minutos e lá veio a Carmen novamente:
"Não vai responder a prova não?"- gritando, o que é pior
Respirei fundo, tampei a caneta, peguei minha mochila e me levantei:
"Que foi isso?Ninguém está autorizado a sair da sala antes de o sinal tocar. Pode ir sentando, mocinha e colocando essa cabeça pra pensar, mas vai levar zero."
"Quer saber?To pouco me lixando pra essa merda de prova..."
"Como é que é, mocinha?"
Todo mundo da sala parou de resolver a prova pra acompanhar o meu épico arranca-rabo com a professora mais rabugenta daquela instituição de ensino:
"Quer saber o que eu faço com essa prova?"
Eu nunca agi daquele jeito na minha vida. Seria a influência excessiva de estar andando demais com a Van?
"Sente-se em seu lugar e pare de tumultuar a prova. Se você não está nem aí, saiba que seus colegas estão."
Eu estava revoltada pelo fato de ter de resolver uma prova-surpresa e já estava humilhada, pois como teria condições de raciocinar em paz se a mulher não parava mais de me amolar e cada vez por um motivo mais bizarro que o outro?
Ela tava me tirando pra burra.
Juro que não tinha nenhuma intenção de atrapalhar a prova dos meus colegas, muito menos de perder nota rasgando o meu teste, mas minha paciência havia chegado ao limite e eu rasguei aquela folha ao meio sem muito pensar.
Só ouvi uns burburinhos de espanto interrompidos pelo berro estridente da Carmen que em seguida puxou meu braço direito e me levou até a direção.
Fiquei a segunda aula inteira ouvindo sermão da Raimunda e resolvi matar a terceira aula.
Quando vou me reunir com o povo no intervalo, meu coração se parte ao escutar a Vanessa conversando com todo mundo e tirando o maior sarro de mim:
"Ela ta tentando me imitar, gente..."
"Mas é claro, né Vanessa?Ela ta tentando ser igual a você mas que continue tentando porque NUNCA vai conseguir." - a Cris comentou e o povo riu
"Dança axé parecendo um robô, fica se convidando pras festas e bebe, me fazendo passar vergonha diante dos meus pais e dos meus amigos. Aff, nunca mais vou à praia com ela, gente...Nunca mais..."
ELA ESTAVA FALANDO MAL DE MIM???ISSO NÃO PODE ESTAR ACONTECENDO...
"Ela é nojenta, meu: largou um baita cocozão no mar...
"Ah não, Vanessa, nem vem mentir: quem cagou aquele baita toletão no mar foi você." -a Paty interrompeu
"Ta, ta, caguei mesmo...E dai"- a Van retrucou com raiva
"Ê maloqueiragem..." - o Márcio zoou
Esqueci de contar que depois do carnaval a Patrícia passou a ser colega de turma, porém sei lá, percebi que ela não vai muuuito com a cara da Vanessa que continuava a me difamar diante de todas as meninas.
"Ela é uma falsa santinha: a gente foi pra Itapoá e ela voltou carregada porque bebeu que nem louca e torrou todo o dinheiro em maconha..."
"Vadia..."- a Cris comentou
Senti tanta vontade de chorar.
E a Cris?Porra, a guria só vem ao colégio pra ficar trocando amassos com o Marcio e indo transar com ele dentro do carro do Gui e depois EU sou a vadia?Olha quem fala...
"Ela deve ter fumado uns antes de vir à aula, por isso deu aquele vexame." - Paloma disse
"Ela vem bêbada todo dia, não quer nem saber de estudar e minha mãe não ta gostando nem um pouco de ver aquela parasita lá em casa comendo, cagando e dormindo sem gastar nada. Ela pensa o que?Que meu pai é rico?"
"Por que não a expulsa de lá?"- sugeriu a Cris
Fui correndo me trancar no banheiro e acho que chorei por pelo menos uns quarenta minutos seguidos até ter coragem de pensar no que iria fazer...
Quando estava chegando à casa daquela puta falsa da Vanessa, a própria vem cheia de querer dar abracinho de urso e perguntar se eu havia chorado. Inventei que era por causa da bronca da Raimunda.
"Nem ligue... depois eu dou uma surra na velha e fica tudo susse..."
Entrei na casa, cumprimentei a dona Ofrásia que costumeiramente se dividia entre os afazeres da casa e ouvia o Lindomar:
"Ta com cara de choro, menina. Que houve?"
"Nada não, tia..." (ela me pediu pra chamá-la assim)
A Vanessa logo foi encher a cara elá no Bar do Jacinto e de tanto a Ofrásia insistir, caí no choro e desabafei.
Ela se sentou ao meu lado e ficou segurando minha mão canhota:
"Eu conversei com a sua mãe e você não sabe o quanto ela ta desesperada de saudades de você. Entenda se sua mãe pegar no seu pé, menina...uma mãe sempre quer o bem do filho, por isso não gosta que você esteja fazendo o que faz..."
A angústia era tanta que eu até soluçava e começava a perceber o quanto sentia saudades da minha mãezinha.
Também me decepcionei ao constatar que a dona Ofrásia era igualzinha a minha mãe. Alías, é bem como dizem: mãe é tudo igual!
Arrumei minha mochila e resolvi bater perna pelas redondezas do bairro enquanto tentava colocar os pensamentos em ordem.
Minha mãe havia perdido a confiança em mim, minha moral tava suja perante a turma toda e pelo jeito meu amado já havia sido envenenado pelo discurso daquela vagaba.
Minha vida não poderia estar pior. :/
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