sábado, 26 de dezembro de 2009

Santa discussão

Curitiba, 28 de Outubro de 2003.

Contei ao Adalberto o que tava rolando e ele me disse que é algo muito sério, tanto que está disposto a me ajudar no que for preciso.
O Cadu e a Morgan não entendem por que to envolvida nisso, mas não dei muita bola pro que disseram porque eles são uns egoístas.
Conversei com a Michelle e ela falou que ontem à noite mataram o companheiro da Josenilda...

"Espero que não tenha sido por causa da nossa conversa de ontem."
"Melhor você não ficar dando pinta por lá ou vai acabar se ferrando..."
"Mas me diz onde é que ta a Vanessa?"
"O que você quer com ela?"
"Não te interessa."
"Interessa sim. Sou a melhor amiga dela..."
"Pois é!Se fosse a melhor amiga dela, arriscaria a vida pra proteger a dela e não ficaria em cima do muro."
"Deus não deixa."
"Cara, pouco sei sobre Deus, mas se quer saber, ele não se ofende com as coisas idiotas que fazemos por aqui porque Ele tem muito mais pra se preocupar se eu fumei maconha, se você faltou aula ou pintou as unhas. Poxa, acredito que Deus ficaria muito mais contente se tentássemos ajudar uma família necessitada do que continuar em cima do muro..."
"Que Deus perdoe a blasfêmia dessa criatura que não conhece Tua palavra, oh senhor."
"Acha que com isso vai garantir a vaga no céu?Se esperta, guria.Você não é santa. Você é tão pecadora quanto eu porque cobiça em segredo e não faz, vê o mal acontecer e não faz nada pra impedir e é tão egoísta que acha que Deus deve ouvir só as suas preces, tanto que nem reparte o que diz aprender lá na igreja. Se tiver de dividir o céu com você, prefiro ir pro inferno..."

Nossa, se tivesse uma câmera, registrava o instante com uma fotografia que teria um misto de excitação e espanto.
Me senti leve quando falei o que precisava e se quer saber, é assim mesmo que penso: enquanto não encontrar um templo em que possa aprender de verdade sobre Deus, poder ter um contato com o criador que imagino, aí sim me converto.
Poxa, nunca vi escrito na bíblia que não pode depilar pernas, nem usar calças, pintar os cabelos e falar só com os irmãos da congregação.
Quem disse que a Michelle já ta salva?
Quem disse se há mesmo céu e inferno?
Que existe uma força superior a nós, existe e cada um a chama como quiser, mas o mais importante é saber respeitar a crença alheia ou nunca vamos deixar de viver em guerra e outra coisa: guerra pra trazer paz NÃO me convence.
Por isso amava quando chegava a hora dos cultos e a Vanessa comentava:

"Chegou a hora da babaquice...Hora de pedir perdão pelos desejos carnais pela vizinha do lado, pela falcatrua pra subir de cargo, pela tremidinha no baile funk, pelas tragadas de baseado, o porre na festa da firma...esses são os nossos santos..."

Ela ligava o som e ia dançar. Eu, quando a conheci, não a entendia direito...

"Eles passam o dia todo, a semana toda pecando, mas penteiam o cabelo e vão lá expulsar o demônio dos outros, julgar os irmãos e dar dinheiro pra sustentar a família da Mi. Como se isso fosse fazer Deus ficar mais contente com eles e carimbar o passaporte da salvação. Hahahaha Depois que saem da igreja vão ralar o cu até o chão lá no funk, tomar todas, entrar no esfrega-esfrega e sabe mais o que lá.Esses são os mesmos que dentro da igreja falam mal de todo mundo, criticam quem dança funk, quem bebe e olha, já vi muita menina criada dentro de igreja que pegou barriga em baile funk, hein?Então sou assim e ninguém vai me mudar. Não é um merda de um cu sujo que se denomina pastor que vai me impor regras não...Sabe de uma coisa: não acredito em nada disso e acho que não existe esse troço de céu e inferno porque até hoje quem foi nunca voltou pra contar...eu acho que tudo acaba quando a gente morre..."

Sempre costumava ficar quieta, mesmo que concordasse com ela.
Espero que apesar dos mal entendidos, ainda haja a possibilidade de pedir perdão, mesmo que isso não traga nem o tempo e nem a Pri de volta.

Ainda neste mesmo dia...

Depois da aula enchi minha garrafinha de água no bebedouro e fui até a casa da PP, na esperança de saber por que ela não está mais indo à aula, mas saí de lá mais agoniada.

"A Vanessa não mora mais aqui..."- avisou a dona Ofrásia(mamys dela)
"Então é por isso que ela não ta mais indo pra aula?"
"Você sabe que a Vanessa nunca gostou muito de estudar, Tita...Ela foi...viver a vida dela..."

O que significava esse 'viver a vida dela'?

Era melhor procurar o Cauê e só a Josenilda podia saber onde ele tava.
Cara, bati palmas em frente ao novo barraco dela. Sim, ela foi despejada outra vez e já tá com ordem de despejo novamente.
Achei que ela ia me xingar, me expulsar, mas me tratou bem.

"O Cauê foi pro mundo..."
"Ham?!"
"Não te contaram?"
"Contaram o quê?"
"O Cauê ta ajudando a Vanessa 'cos' negócio dela e cê vê só, né?foi só ganhá din din e deixa a mãe e os 'irmão' passanu fome..."

A Josenilda caiu no choro:

"Aqui na vila os dois num entra mais porque o Ronei falou que se eles 'colocá' os 'pé' por aqui, vão levar bala. Tão jurado di morte..."
"Mas o que que houve?"
"Que que houve?Que que houve é que a Vanessa e o Cauê 'dedarum' o irmão do Ronei, daí os 'porco fardado' vierum pra cá e mataro o cara..."

Resolvi falar com a Michelle e ela me contou tudo com mais clareza e domínio dos fatos:

"O irmão do Ronei baleou o irmão da Vanessa porque perdeu uma partida de sinuca e o Arlindinho morreu. Por vingança, a Van e o Cauê traíram o lema da vila e denunciaram o mano do Ronei pros PFS e o Ronei, quando soube, jurou a Van e o Cauê de morte, por isso eles preferiram ir embora daqui, por isso ela não ta vindo à aula e nem mais virá...Os comparsas do Ronei estão rodeando a região, esperando pra agir."
"Credo!"
"O seu Arlindo e a dona Ofrásia estão desesperados porque toda noite os manos do Ronei ficam circulando ali em volta da casa deles e já prometeu que vai botar fogo em tudo..."
"Denuncia ele..."
"Ficou louca?Não posso!"
"E o que que a gente faz, então?"
"O melhor que a gente faz é NÃO se meter em nada."

Mesmo já sabendo de tudo que tava rolando, voltei pra casa mais aflita e não botei nada dentro da boca, tanto que to com sono e...

Por debaixo dos panos

Curitiba, 27 de Outubro de 2003.

Nossa escola se tornou palanque político...
Mal a gente chega e já é bombardeado de panfletos.
Depois do intervalo a melhor parte: os candidatos se apresentam publicamente, expõem suas revolucionárias propostas e voltamos à sala de aula.
As rixas não são mais entre nós alunos e sim entre os próprios professores, mas não rola pancadaria nem aluna baleada porque tudo ocorre por debaixo dos panos.
Por falar em rixa, mesmo não suportando a PP, ando meio preocupada com ela porque faz dias que ela não vem à aula. Dias não, semanas...semanas inteirinhas...
Será que aconteceu alguma coisa com ela?

Filosófica

Curitiba, 25 de Outubro de 2003.

Não consigo parar de pensar...
Desde menina sempre ouvi a recomendação para não pensar tanto, não sofrer por antecedência, mas parece mesmo que nunca dou ouvidos ao que dizem os adultos...
Apesar de exteriormente já me sentir uma mulher, meus pais ainda insistem que sou uma menininha que pouco sabe da vida.
Bem, talvez estivessem certos se dissessem isso no começo do ano, porém agora terão de se retratar porque mudei muito de fevereiro pra cá e não preciso nem acrescentar mais nada porque os fatos falam por si.
Claro que quando eu me lembrar ou mudar de idéia a respeito de algo, posto aqui pra que todos saibam.
Na verdade nunca entendi por que converso com meu diário como se ele fosse gente.
Às vezes até acredito que escrevo pra alguém em especial e em outras ocasiões acho que escrevo pra mim mesma. Afinal, sou minha melhor amiga...
Às vezes acho que todas as respostas que procuro já estão dentro de mim ou perto do meu alcance e em alguns dias me acho o ser mais confuso do mundo.
Às vezes acho que estou amando e que dessa vez vai ser pra valer e depois me sinto a MAIOR otária do mundo quando me lembro das merdas que escrevi e prometi enquanto estava alucinada.
Às vezes me olho no espelho e me sinto normal e em alguns dias tenho vontade de me suicidar porque por mais que me esforce, sempre pareço gorda, mas espero que essa fase de altos e baixos acabe logo antes que minha sanidade também esteja com os dias contados.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

[OFF] ♥ A letter to Adalberto ♥

Querido professor Adalberto,
Oi, tudo bem?Comigo está tudo bem e espero que você também esteja. É a primeira carta que escrevo a você, por isso estou tão sem jeito até mesmo pra segurar a caneta...
Queria que pelo menos, se tiver de ir embora, soubesse o quanto te amo como pessoa, como mestre e o quanto amo suas aulas, sua amizade, suas conversas; enfim, você torna minha vida muito mais feliz, colorida e eu queria que tudo isso pudesse durar pra sempre.
Eu não sei se depois do que te dizer, tudo entre nós continuará sendo igual, mas espero que não me leve a mal, sabe?Não mando no meu coração...
Desde que nossos olhos foram de encontro, meu coração bateu mais forte de verdade pela primeira vez...
Descobri que as aulas de português podem ser bem mais proveitosas quando há um professor jovem e divertido como você pra embelezar mais ainda a arte Parnasiana, os poemas Simbolistas e dar sentido a análise sintática.
Se as palavras não ficarem tão boas, me perdoe por não escrever tão bem como os imortais que estamos estudando; porém leve em conta que te amo tanto que não consigo mais esconder e em tão pouco tempo, o que me faz pensar que é pra valer, pra sempre ficar no coração...
Queria pelo menos que se não pudérmos ser casal, conseguíssemos manter viva nossa amizade porque gosto tanto de você que já não sei mais imaginar minha vida sem sua presença, seu sorriso pra me animar...
Não sei se sente o mesmo por mim; não sei se me enxerga nada mais que outra estudante de 15 anos; se algum dia me veria muito mais que somente uma menina, mas enfim, estou abrindo meu coração e sendo honesta de uma vez por todas porque não quero viver de fingimentos e ilusões...
Receba esta carta não como uma simples declaração como tantas outras que você já deve ter lido, mas como o presente de alguém que deseja muito seu bem.

Com carinho e amor
para seu professor predileto,


Tita.

Zen

Curitiba, 24 de Outubro de 2003.


Novamente adiantando trabalhos e deveres de casa, mas agora nada tira minha paz...
Hoje fiquei cuidando do Juninho e quando eu o ninei, ele parou de chorar. Acredita?
Achei que quando ele me visse, abriria o berreiro, mas ao contrário, ficou dormindo que nem um anjinho.
Depois que terminei de estudar, fui ouvir música e resolvi escrever uma carta pro Adalberto...

Amigos pra sempre! :)

Curitiba, 24 de Outubro de 2003.

Hoje foi níver do Jef e o fervo começou logo cedo...
A Turma do Metal pulou o muro no intervalo pra comprar ovo, trigo, mostarda e catchup, mas eu aproveitei pra ficar conversando com o Adalberto...
Quando to na aula fico contando os minutos pra estar perto dele e apenas com um cumprimento dele, meu dia fica mais ensolarado, mais feliz...
Não creio que em tão pouco tempo consegui gostar tanto de alguém como gosto dele, mas ele, logicamente, JAMAIS poderá saber... Ora essa!Quanta pretensão da minha parte acreditar que tenho alguma chance com o Adalberto.
Ta, voltando a muvuca metaleira, acabando a aula da subustituta da Carmen, a gurizada segurou o Jef e só lá fora o enchemos de sujeira...
"Vocês me pagam, seus merdas...vocês avacalharam..."
A Raimunda fingiu que não viu nada porque mais do que nunca agora 'virou' boazinha pra se reeleger...
Fizemos um racha e comemos esfihas com refri; exceto eu, que bebi água e só comi uma esfihinha de queijo porque o povo me falou que se eu não comesse, iam me fazer comer as sobras...falavam isso como se fosse sobrar um mísero farelo pra contar a história.
Como o Jef ainda tinha curso de computação mais tarde, o fervo durou mais um tempo.
A gente ficou sentado mais ou menos em 10 pessoas lá perto da Biblioteca Pública jogando conversa fora e zuando a campanha da Raimunda.
"Raimunda: a voz do aluno; a voz da revolução..."
O Cadu continuava imitando a diretora e quem passava na rua não entendia muito...coisas da vida...
O Jef teve que ir embora; outro povo foi também e ficamos só o Cadu e eu...
Na hora também pensei em ir embora, mas acho que seria falta de educação fazer isso.
Ficamos algum tempo constrangidos com a presença do outro depois de tudo que aconteceu...
"Vai vir pra aula no dia do teu aniversário?"
"Não sei..."
"Já vai embora?"
"Não...você vai?"
"Não sei...você vai?"
Ao menos a conversa tava fluindo...
"Achei que não quisesse mais falar comigo..."
"Como se eu conseguisse não falar..." - admitiu ele
"Mas não é mais a mesma coisa..."
"Eu não devia ser seu amigo."
"Talvez se tudo tivesse sido diferente..."
"Entende, Tita?Eu fui desonesto contigo porque não revelei desde o início. Eu vacilei desde o começo e tem razão em ficar de cara..."
"É estranho, mas sinto falta de falar com você..."
"Me odeio toda vez que tenho de ser frio contigo...Me odeio por ter agido como um cafajeste, por não ter aberto meu coração antes e eu sei que não é a mesma coisa; sei também que você nunca vai me perdoar e você tem esse direito..."
"Mas o que eu quero saber é se você me perdoa..."
"O que você fez de errado pra ter de me pedir perdão?Que eu me lembre você foi um verdadeiro anjo na minha vida, a menina mais especial que já conheci e morro aos poucos todo dia vendo você definhar e não poder mais te ajudar..."
"Ah Cadu...fala assim não..."
"É sério, Tita!Menina como você tem que ser tratada como uma boneca, com respeito, carinho, amor e o Gui jamais iria te dar tudo isso..."
"Gui?"
"Você gosta dele, não gosta?"
"Não..."
"Não gosta mais do Gui?"
"Ah, por favor...credo!"
"Mas eu sei que tua alegria é diferente. Sei que tem alguém que ta balançando teu coração..."
"Não. - ri meio sem jeito- Claro que não..."
"Ah não?"
É bem capaz que eu vou contar pra alguém.
"Quer que eu te leve pra casa?"
"Não precisa não, Cadu..."
"Certeza?"
"Absoluta!Mas e aí?como é que fica nosso lance?"
"Amigos pra sempre!"
O Cadu diria que esse momento seria muita purpurina, mas nossa amizade é tão forte que até vale a pena pagar um 'mico' desses no centro da capital 'ecológica'.
Agora sim me sinto feliz de novo...
Pode não ser como era antes, mas que vai ser mais forte, ah, será.