Itapoá, 03 de Março de 2003.
Aquela lazarenta da Vanessa não tem cura mesmo. Largada que só, fanfarrona de mão cheia.
Deu mó raiva ver a FDP se partindo de rir da gente quando contamos que batemos perna por Guaratuba todinha no mó desespero do mundo temendo que algo ruim pudesse ter acontecido.
A vaca estava em Itapoá curtindo e nós fazendo papel de babacas imbecis atrás dela...
Mesmo extremamente cansada fui curtir a praia com a Paty. Sozinha o seu Geraldo e a dona Marilda não deixaram que eu fosse.
Foi meio chato porque enquanto tomávamos café da manhã a Pri ligou pro Tanguinha contando que a mãe da Julia morreu.
Os pais do Ricardo, ao serem informados, resolveram subir a serra e prestar condolências as meninas.
Deu plantão até na TV.
Aff! Detesto plantão na televisão não importa a emissora. Você ouve aquela vinhetinha macabra e já sabe na certa que é coisa ruim...
Bem, a mãe da Julia teve um infarto fulminante enquanto dirigia e o carro dela entrou debaixo de um caminhão. Deve ter sido horrível pra nem mesmo o Gui ter clima pra zoar.
A Vanessa pegou nossos pertences e me convidou pra almoçar. Ela também foi convidada pelos pais do Ricardo pra passar o carnaval no litoral e nem precisou empenhar grandes esforços pra ganhar a permissão dos pais. Ô mina de sorte.
Pelo que notei, ela não tava nem um pouco afim de voltar pra Curitiba e ir a um velório. Ela queria mais é curtir cada dia do carnaval como se o mundo fosse acabar...
Sei que era errado, mas eu pensava o mesmo...
Que ela é sem noção, não posso negar, mas aprontamos muuuuuito na companhia uma da outra.
Olhei para o umbigo dela e vi aquele piercing reluzindo ao Sol:
"Seus pais deixaram você colocar?"
"Mas é claro!"
"É bonito..."
"Já pensou em colocar ou tem medo?"
"Já, mas é que..."
"Eu coloquei o meu piercing aos 12 e tenho um amigo, o Lelo, que pode nos ajudar..."
"Não vai trazer problemas pra você?"
"Acha que eu faria isso?"
"Não, né?"
"E aí?Vai colocar ou vai amarelar?"
"É muito caro?"
"Que caro que nada, bobona!O Lelo é meu camarada..."
A Vanessa me levou até o Lelo's Studio - Piercing and tatoos. Ficava um pouquinho longe de onde estávamos, mas o trajeto foi rápido porque fomos conversando e rindo muito.
Chegando ao Lelo's Studio subimos dois andares de escadas, mas valia a pena todo esse sacrifício.
Quase não acreditei que aquele carinha cheio de tatoos pelo corpo, alargador nas orelhas e diversos piercings era amigo da Vanessa.
O local de trabalho era muito zen com grafites feitos pelo próprio Lelo, dono do estabelecimento e também estavam expostas muitas jóias para o freguês escolher.
Na sala de espera um regueiro cheio de dreds no cabelo preenchia o meu formulário e a Vanessa conversava com o Lelo.
Nos sofás, muitas pessoas esperavam por sua vez. Era um domingo de carnaval, mas havia uma clientela grande esperando pelo Lelo.
A TV estava ligada e não se fala em outra coisa que não fosse o carnaval, os desfiles do Rio e das rainhas de bateria ou então comentavam sobre o acidente da mãe da Ju.
Os jovens ansiosos como eu folheavam as revistas sobre piercings, tatoos e alargadores pra passar o tempo.
Eu estava quase me arrependendo de colocar o piercing quando o secretário Marley me chamou. Tava na cara que ele era fanático por Bob Marley e por maconha também porque o cheiro da erva alastrava o local:
"Hei mocinha, vai precisar da assinatura da sua mãe..."
"Agora fudeu..." - pensei comigo
Enquanto ele trocava de canal na TV eu peguei minha mochila, fingi que fui lá fora (só pra convencê-lo de que minha mãe estava lá na frente me esperando), tirei a falsa permissão que a Julia digitou pra mim no computador da escola e falsifiquei a assinatura da minha mãe.
Não entrei depressa e pensei se realmente estaria fazendo a escolha certa: já havia aprontado o suficiente com a mamys, porém logo em seguida recobrei meus sentidos e sabia que se pedisse pra colocar um piercing ouviria um NÃO.
"Daqui a pouco o Lelo te chama." - avisou o regueiro
Um tempinho depois o Lelo abriu a porta de onde trabalhava e eu vi um rapaz saindo com um alargador E-NOR-ME nas duas orelhas:
"Renata Ariel..." - Lelo me chamou (era comigo)
"Maconheiro besta...escreveu errado meu nome..." - retruquei baixinho comigo mesma
"Renata Ariel."
"Muriel" - corrigi
"Vamos entrar?"
Senti o mesmo frio na barriga do dia da festa da Cris...
"Então escolheu essa jóia?"- perguntou o Lelo enquanto esterelizava as agulhas
"Aham!"-respondi juntando os pés porque minhas pernas tremiam involuntariamente
O que me fez ficar bem calma foi ouvir Ramones ao som de fundo:
"Você curte Ramones?"
"Pô, esses caras são minha referência musical..." - o tatuadão higienizava meu umbigo e marcava onde seria feito o furo para colocar a jóia
"Meu namorado Guilherme é doido por Ramones..." - acrescentei pra fazer a conversa continuar fluindo
"Pode deitar ali na maca?"
Deitei imediatamente e tentei me concentrar na melodia de Poison Heart pra não pensar na dor.
"Vai doer muito?"
"Eu sempre ouço essa pergunta. - riu - Não vai doer nadinha. Vai ser só o susto da picadinha!"
Não senti dor nenhuma e quando fui entregar os 30 reais (custo da jóia e da colocação desta), ele não aceitou o dinheiro. Fiquei perplexa!
Recebi recomendações de como cuidar do piercing e descobri que tinha uma garantia de seis meses a partir daquela data, mas somente em caso de a jóia apresentar defeito de fabricação já que era feita de aço cirúrgico. O seguro não cobria o mau uso por parte do comprador...
Agradeci o Lelo e fui pra fora do prédio. A Vanessa ainda ficou por lá conversando por mais um tempinho com o amigo e então voltou.
Fomos comer sorvete pra comemorar e tão logo ela já pediu uma cerveja:
"Te pago depois, Tita. Prometo!"
Mesmo tendo dançado a noite inteira e ter andado comigo por um tempão a Vanessa ainda me levou a um Trio Elétrico duma banda de axé formada por amigos dela.
Nunca fui chegada em músicas de axé, mas agora estava só na companhia da Vanessa e obrigada a fazer tudo que ela fazia.
Inventei uns passos sem noção só pra me sacudir ali no meio daquele povo beijoqueiro e cadê a Vanessa?Sumiu de novo!
Começava a chover, eu não tinha onde ficar, não podia ligar pros meus pais pra contar onde estava e agora estava ali à mercê de um tarado, de um arrastão e sem a mínima idéia de onde a Vanessa poderia estar.
"Arrastão...arrastão...arrastãããão..."- gritava uma moça que foi assaltada
"Ta ocorrendo um arrastão por aqui..." - era o que eu entendia
O medo me paralisou consideravelmente e só lembro que agarrava minha mochila com uma força sobrenatural. Agora era questão de sobrevivência.
Escapei daquela muvuca e cheguei a uma rua de veranistas, onde encontrei um meio-fio e me sentei até recuperar o fôlego. Sinto alguém me cutucar e dou um berro:
"Nossa, te assustei tanto assim?"
Me levantei puta da vida e gritei:
"Porra Vanessa, onde é que você se meteu?"
"Relaxa, guria...vem comigo..."
"Pra onde você vai me levar..."
"Veeeeem..."
Andamos mais ainda e então chegamos num matagal. Não nos falamos durante o trajeto.
"Já experimentou?" - Vanessa se sentava com confiança na grama
"Eu?Nunca!"
"Ah é?Nunca?Não sabe o que ta perdendo..."
"Por que não vamos embora?"
"Ah guria, vá catar coquinho e senta aí antes que eu perca a paciência."
Sentei ao lado dela, que agora enrolava um cigarro de maconha e tragava a erva com um prazer o qual nunca vi estampado no rosto de alguém até aquele momento.
"Quer?"
"Não...melhor não..."
"Deixa de ser careta. Não vai viciar não..."
"Não?"
"Não... Acha que eu quero seu mal?"
Rimos pra caramba de tudo e nada ao mesmo tempo. Sei lá como aquela noite passou, mas que eu curti, ah, eu curti...
Quem disse que minha mãe tem que saber de tudo que eu faço?
O triste é pensar que a curtição ta acabando e eu vou ter que voltar pra casa... :/
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
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