domingo, 18 de outubro de 2009

Uma carta para mamãe

Curitiba, 30 de Abril de 2003.

Querida Mamãe,

Aqui é a Tita, a causadora de toda dor em sua vida.
Tomei uma decisão: vou me suicidar neste feriado.
Por favor, não se assuste ou tente impedir.
Receba esta notícia com profundo alívio, pois nunca mais terá de se preocupar comigo.
Espero que concorde com minha escolha e não procure entender as razões.
Descobri, da pior forma, que não pertenço a este mundo imbecil, jamais concordarei com todas as besteiradas que o sistema quer que sigamos.
Não possuo amigos e agora meu namorado, antes ateu convicto, agora passa o dia falando em línguas estranhas e afirmando que o juízo final está chegando.
Não encontrei um caminho o qual pudesse encontrar todas as respostas para minhas indagações e jamais senti vontade de abrir meu coração com você, pois nunca procurou me entender.
Sei que nunca fui uma boa filha, só estraguei seus sonhos de juventude e me desculpe por isso.
Você bem que podia ter usado preservativo, não?
Não quero ser velada nem enterrada pra ficar o resto da eternidade mofando em cemitérios, viu?
E nada de hipocrisia em dia de finados, ta?Não quero flores murchas representando um falso amor.
Se não me tratou bem em vida, não é depois da morte que tudo vai mudar...
Se possível, atenda a meu único desejo: creme meu corpo e despeje minhas cinzas na praia de Guaratuba, pois foi lá que passei o fim de semana mais feliz da minha vida o qual precisei inventar uma falsa pesquisa de geografia pra poder viajar com o Gui e romper com a infância, antes tão presente...
Nesta mesma viagem experimentei maconha pela primeira vez, experimentei bebida alcoólica e pratiquei vandalismo em propriedade alheia.
Se ainda não tiver enfartado de desgosto, saiba que falsifiquei sua assinatura e coloquei um piercing no umbigo.
Você poderia estar evitando tudo isso se não tivesse dito tantos nãos desnecessários.
Não sei como terminar esta carta. Quer dizer, não sei se você vai terminar de lê-la, pois provavelmente estará surtando de ódio e amaldiçoando o dia em que foi para a cama com meu pai.

                                                                                             Com carinho,

                                                                                                    Tita.

*Obrigada por não ter me abortado.
**Obrigada pelos anos de estadia sem me cobrar um centavo.
***Obrigada por mais alguma coisa que deixei de incluir na carta.





Apesar de não ser a filha dos seus sonhos eu te amo muito, mãe.

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